dossiê: falas e falhas da universidade

“Todos tabelados!” Duas cartas abertas àqueles que nos governam.

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Este texto da Barbara Cassin é a introdução do livro Derrière les grilles: sortons du tout-évaluation [1] (Por trás das tabelas: saiamos do tudo-avaliação) publicado em 2014 (Paris, Mille et une Nuits, L’Appel des Appels). Trata-se de uma obra coletiva, dirigida por Cassin, que se insurge contra os mecanismos de avaliação da performance implementados pelo Estado francês nos mais diversos setores: da economia até a saúde, a educação, a pesquisa etc. A introdução do livro conta com duas cartas abertas, endereçadas “àqueles que nos governam”: uma da própria Barbara Cassin (aqui publicada); a outra de Roland Gori. A indignação que mobiliza o livro, vivamente colocada na carta da Barbara, nos concerne a todas e todos. A carta é uma DR com aqueles que nos governam. Na França, no Brasil e em toda parte onde a avaliação permanente da produção e da vida está em curso.

Barbara Cassin é filóloga e filósofa, diretora de pesquisa do CNRS, França, membro do coletivo l’Appel des appels. Autora, entre outros, de Gregos, Bárbaros, Estrangeiros (Editora 34); Ensaios Sofísticos (Siciliano); O efeito Sofístico (Editora 34); Vocabulaire Européen des Philosophies, Dictionnaire des intraduisibles (org., Seuil-Le Robert, 2004); Google-moi, la deuxième mission de l'Amérique (Albin-Michel, 2007); Jacques le Sophiste, Lacan, logos et psychanalyse (Epel); Plus d'une langue (Bayard).

“Todos tabelados!” [2] Duas cartas abertas àqueles que nos governam.

Este livro tinha sido preparado para a primavera de 2012 e para a campanha presidencial. A avaliação esquentava as orelhas de todos já há um quinquênio – lembrem-se: “Toda atividade sem avaliação traz um problema”, “Eu vejo na avaliação a recompensa da performance. Se não há avaliação, não há performance” [3] – e particularmente da parte dos professores-pesquisadores, a quem o “Eu vos agradeço por terem vindo, há luz, está aquecido” havia sido endereçado. L’Appel des Appels (A Demanda das Demandas), e não apenas este coletivo, se debruçava sobre a avaliação de todas as maneiras possíveis [4]. A avaliação não cessava de provar de todas as maneiras possíveis sua inoperante estupidez e sua periculosidade. Talvez lembremo-nos ainda do “Eu estou com 22 de 30 no verde” de nossa ministra da economia, hoje promovida à diretoria do Banco Mundial. Ela não pressentia nada, às vésperas da crise da bolsa, e falava triunfalmente de seus próprios indicadores de performance...

Em seguida, a mudança foi eleita, e isso nos alegrou [5]. Pensávamos que nosso trabalho não tinha mais atualidade.

Ora, ele é tão atual quanto antes, portanto mais do que nunca.

Sem surpresa, se pararmos para pensar: a avaliação provém do mesmo tipo de racionalidade “moderna” que a técnica (dizia Heidegger), o biopoder (dizia Foucault) e o crime ecológico (com esta nuvem na hybris [6] estigmatizada pelo Manifesto Convivialista [7]). A chave filosófica deste todo-avaliação é provavelmente a seguinte: segundo o paradigma da vontade de potência que é vontade de mais potência, o excesso, o “mais” ou o “ainda mais” fazem parte da essência da avaliação. Da mesma forma que mais técnica, mais biopoder, mais crime ecológico constituem a própria ideia, ou a essência, da técnica, do biopoder, do crime ecológico, a avaliação leva sempre a mais avaliação.

A avaliação, aliás, foi instituída durante o governo Jospin [8]. Como livrar-se disso, diz-se, e como viver sem ela?

E agora? Vamos entregar os pontos? Continuemos o combate? Indignemo-nos!

Que seja. Eis aqui, portanto, um livro a mais, um verdadeiro “coletivo” que se prolonga on-line no site L’Appel des Appels. É preciso árvores para fazer papel, e há limites financeiros de edição e de distribuição, mas a um momento dado, esta obra coletiva teria se aproximado bem de umas seiscentas páginas... Virtualmente, ela se estende a “tudo” sem nenhuma exceção, e não somente aos sintomas destacados aqui para ilustrar “todos os domínios, todas as profissões, todos os instantes” – tudo, verdadeiramente tudo: do risco previdenciário ao risco atômico e da gestão da arte à gestão dos imigrantes...

Mas ante o quê nos indignamos precisamente?

Ante a necessidade de números para governar? Certamente que não. Não se pode abrir mão deles para fazer previsões que sejam as menos delirantes possíveis; é preciso censos, estatísticas, projeções e planilhas de controle. Desnecessário dizer que na democracia é preciso prestar contas; isso chamava-se inclusive logon didonai, “dar um, ou o, logos”, o dever de todos os magistrados atenienses, sorteados ou não, ao fim do mandato.

Mas que seja preciso numerar tudo isso assim – tudo isso e assim – sim, nos inquietamos. Inquietamo-nos e indignamo-nos, humanamente e politicamente.

Eis por que esta carta aberta aos que nos governam. Por favor, tomem distância, pensem. Vocês têm tempo para isso e é vosso dever.

Para que vocês entendam o que já não dá certo, o que não deve continuar, nós pedimos que reflitam sobre o que lhes serve de ferramenta universal: as tabelas, as grades de avaliação.

Pois essa é a forma particularmente insuportável que seus números assumem: a de tabelas, de grades.

Primeiramente, nossa vivência como cidadãos, administrados, profissionais: nós sufocamos por trás das tabelas. É preciso entrar nos quadradinhos das tabelas custe o que custar. O que nós fazemos, aqui ou ali, não tem mais nenhum sentido. Se vocês temem a desmotivação: ela é muito mais profunda do que vocês imaginam, muito mais real, constitutiva - se vocês não tomarem cuidado - de uma nova subjetividade, coletiva e individual, que se ausenta ao deixar as mãos marcarem cruzinhas nas células das tabelas. Dando lugar para todas as ressubjetivações extremas-extremistas que vocês temem e que nós tememos com vocês.

Vocês encontrarão neste livro dezenas de tabelas, que representam centenas, milhares de outras. Suicidas, tanto no sentido próprio quanto no figurado. Pois nós não reconhecemos mais o mundo, nós não nos reconhecemos mais na representação do mundo que vocês nos constrangem a instruir, pedaço por pedaço, num fracionamento generalizado que pretende conter o sentido acumulando itens parciais insignificantes. Somos novos Carlitos em Tempos Modernos, não mais na linha de montagem, mas atrás das tabelas, e sem rir. Com as solas furadas, pois há crise.

E é preciso passar por esta negação de sentido para aceder a um financiamento qualquer. Não há melhor maneira de entregar o dinheiro nas mãos daqueles que não se incomodam com a ausência de sentido, aqueles para quem o dinheiro basta para dar sentido – aos profissionais de finanças, os financiamentos.

As tabelas se autossustentam, De um lado, decompomos nossos atos, nossas vidas, para que eles possam entrar na prestação de contas: vocês, governantes, são ávidos por essas reduções para estabelecer e ajustar vossas políticas. Vocês nos devolvem, então, essas novas tabelas, política pronta, e nós devemos nos conformar, nos enquadrar, para sermos financiados. Tal é o segredo do bottom up, top down, e vocês imaginam que esta é a boa governança.

Listemos algumas evidências.

Vocês, governo que determina a norma social e obedece à norma global, não cessam de nos avaliar para que a França seja melhor gerida, mais econômica e mais produtiva.

Vocês medem a performance, ficção proteiforme extremamente sinuosa porque ela permite transformar o não mensurável em mensurável, a qualidade em quantidade. Neste ponto o modelo de vocês é do tipo “Google”, potência refratária ao imposto, que vocês não sabem se é preciso boicotar ou paparicar. Pois o algoritmo que faz a excelência e a fortuna do mecanismo de busca por excelência depende, em última instância, do número de cliques (um clique um voto) sobre um item, promovido, graças a essa superioridade digital, ao alto da página, como o primeiro, o melhor. A característica do (bom) mecanismo de busca é fazer com que a qualidade se torne uma propriedade emergente da quantidade.

É assim, e no fim das contas “democraticamente”, pela lei das grandes quantidades, que vocês próprios definem a excelência como o topo da lista da norma; a partir do quê vocês podem distribuir com toda equanimidade as recompensas, as incitações, as punições.

É claro que, ao fazê-lo, o Estado se pensa e funciona como uma empresa, e mesmo uma empresa de empresas (como a mão é para Aristóteles um “órgão dos órgãos”) na coopetição [9] (uma palavra do Google) mundial, onde os cidadãos são seus empregados.

Ora, se sua empregabilidade tarda ou deixa a desejar, isso equivale, para eles, a uma negação absoluta: uma “sociedade de trabalhadores sem trabalho”, diz Arendt, não podemos imaginar nada pior.

Mas ela se engana, existe pior: uma sociedade de trabalhadores com e, muito frequentemente, sem trabalho, mas, tanto em um caso como no outro, sob vigilância.

É virtualmente – a palavra é importante porque remete à dominação das novas tecnologias – cada gesto de cada funcionário da limpeza, enfermeiro, médico, mestre, professor, pesquisador, diretor de um estabelecimento, magistrado, servidor social, mas também mulher grávida, recém-nascido, criança, aluno, doente, dependente, em estado terminal, sem-teto, comprador, passeador, usuários em geral da rua ou da rede que está submetido a uma avaliação. Qualquer que seja a ação ou a paixão, ela é avaliada.

A tabela, no presente.

Ela funcionará com toda transparência, ela constituirá uma garantia de objetividade e de igualdade democrática? Mas, e isto começa a ficar evidente, é uma aparência de transparência, de objetividade e de democracia.

Separemos logo o objetivo do subjetivo, supostamente sufocado.

A objetivação passa pela comensurabilidade. Só podemos notar, objetivamente, itens. É preciso, portanto, decompor os ofícios, os saberes, os processos, as relações e os sentidos, para criar procedimentos seccionados em tarefas: itemizamos para colocar em células da tabela. Em última análise, a objetividade requer elementos de linguagem pré-formatados (keywords, issues, deliverables) que constituem uma conversa fiada universal, expressa em globish, pois essa é, a princípio, a língua que faz a tabela. É a língua dos administradores que fabricam as dicas, estruturalmente tributárias da opinião recebida e sempre atrasados em uma evolução intelectual. A língua dos especialistas internacionais aos quais se recorre para evitar qualquer conflito de interesse, dito de outra forma, sempre fora de contexto, que tem por única função a abstração duvidosamente concreta da mundialização da concorrência. Existe, enfim, de bom grado - malgrado a língua dos avaliados - essa nova língua para todos.

Nenhum conteúdo ganha corpo se não é assim formatado pelas e para as tabelas. Fazemos aplicações a longo prazo (é mais fácil quando se tem dinheiro, basta ter recursos para dar às firmas especializadas, no jargão successful). O fundo não conta porque ele não se faz objetivamente “notável”, tanto no sentido literal quanto figurado, de tal forma que, com essa lógica, um coração de um projeto de cinco páginas bem formatadas pode ser o suficiente para se ganhar milhões de euros com a condição que o dossiê apresente uma centena de páginas de enrolação copiada e colada, com proliferação de siglas, trigramas (ccl), gráficos de pizza, gráficos de Gantt e de Pert... Uma língua congelante, mas evolutiva, que tem como cereja do bolo elementos da linguagem tributária da moda, que transformam alguns requisitos interessantes em estratos datados, entre gênero, resiliência e durabilidade.

Somos avaliados e somos avaliados incessantemente, de tal forma que nos acostumamos a falar por clichês. Ora, só falar por clichês, isso é, eu o digo com a maior seriedade do mundo, o sintoma daquilo que Arendt criticava em Eichmann: a banalidade do mal.

Na França, estamos na Europa, e na Europa estamos no Canadá ou nos Estados Unidos. Os Estados Unidos inventam uma boa parte das DSM (Manual de diagnóstico dos distúrbios mentais), dos auxílios aos diagnósticos e das prescrições, avaliações de todos os gêneros. O Canadá inventou o fator h. Para dizer gentilmente, esses dispositivos, dos quais podemos admitir que tenham alguma validade dentro de sua ordenação, foram vítimas de uma disseminação insaciável. O fator h, que deveria servir muito modestamente, para a bibliometria médica, para cifrar o grau de credibilidade de uma publicação (quantas vezes foi citado e em que tipo de revista), sofreu de dois pecados de exportação: aquilo que deveria servir para avaliar a massa crítica (as publicações médicas) transformou-se em um critério individual (julgamos se você, o autor, é um “publicável” digno ou não de submeter o artigo), e aquilo que deveria julgar o existente, determina o futuro.

Com a passagem aterrorizante, denunciada por todos, mas praticada a cada instante do tabelamento, da massa crítica ao caso individual: a tabela funciona com “toda a informação do mundo”, de maneira holística, mas jamais caso a caso, com a soma empírica dos casos, de maneira clínica. Ela é, por sua natureza mesmo, dramaticamente inapta a toda prescrição no nível do caso – a essa miudeza que mobiliza: duas doses de Ritalina...

O mais inquietante com as tabelas é que se trata sempre de uma profecia autorrealizável. Não paramos de confundir a prescrição com a predição, como nos filmes de ficção científica, desde La Jetée [10] até Minority Report de Steven Spielberg: é como se tudo fosse escrito no futuro anterior [11]. Mas a ficção científica futurista que se faz nossa hoje já não tem nada de crítica, de irônica ou inquietante; ela dita a norma, tornada natural, onipresente com a prevenção-predição; ela carrega consigo um perigo imediato, a saber a destruição dos indivíduos, nossas crianças ou “os indiciáveis”? Essas práticas regressivas ligadas ao medo se conjugam com a falta de meios: eis-nos aqui de volta aos hospitais do século passado, contenção e eletrochoques (perdão, estimulação cerebral profunda). Não há tempo para tomar tempo, não há tempo para falar. Essas tabelas que vos acompanham ao longo da vida, esses “dados”, não podemos senão nos conformar com eles, pois constituem a única tabela para a leitura das condutas! Contudo, sabemos um pouco que existe o caso, a clínica, o acontecimento. Mas é aí que a coisa se torna indecifrável, pois não cifrada.  

O real assim desconstruído já não é sequer observável, ou ainda, ele já não possui nada de real: observamos que não observamos nada. O caso exemplar entre nós é o da morte: poderemos constatar aqui a que ponto já não se trata sequer de um “fato”. Alguém morre? Alguém morreu? Está de acordo com... como fica pra nós... para permitir que... A doação de um órgão por exemplo, em função das técnicas de hoje, que já não são as de ontem e não serão as de amanhã. Já não existem fatos, mas dispositivos fabricados, critérios cambiantes, ficções protocolares.

Quanto à subjetividade, ela simplesmente, a despeito das “boas práticas” dos programas de avaliação, fica coberta pelo véu pudico da objetivação. Ela intervém, contudo, em quase tudo, paralelamente: na escolha dos itens, na formatação das tabelas e na construção de indicadores, no tempo da avaliação, momento e duração, na interpretação e na valorização dos resultados. Evidentemente, quanto mais alto estamos na hierarquia, mais fabricamos tabelas, precisamente as tabelas que serão aplicadas a vocês e que aplicaremos a nós mesmos, e mais decidiremos o sentido que elas terão e as consequências que produzirão. Uma auto-avaliação não declarada... shiu!

Tendo sempre, se isso te convém, e se você está por cima da carne seca, a possibilidade de reivindicar uma tabela superior, isso é, que sirva melhor aos interesses que te interessam. O exemplo da Universidade de Middlesex é paradigmático: no momento em que seu departamento de filosofia, vencedor segundo as tabelas, é classificado como um dos melhores do Reino Unido, ele é fechado. É que ele não satisfazia outras tabelas: rendia menos (pelo menos a curto prazo, pois como calcular, hoje, o déficit de imagem da universidade produzido por essa decisão?) que outros departamentos na mesma universidade, por exemplo, que o departamento de marketing. Purely financial, nada pessoal; nada de intelectual tampouco, certamente. Esse é o critério último, suscetível de produzir todas as prescrições de normas. Purely financial: depois da cura do tv-coca-barradecholate, mas coma cinco frutas e legumes por dia, vêm os laboratórios farmacêuticos prescritores de Ritalina para nossos pequenos e de antidepressivos ou/e de remédios para emagrecer com efeitos colaterais que devemos curar sozinhos. Isso é o marketing.

A grande ausência desse dispositivo todo é a invenção. Eis o que desejamos verdadeiramente, para fazer a diferença. Mas é aí, contudo, que o calo aperta e começa a ficar evidente.

De início, no que diz respeito às próprias políticas de pesquisa: avaliação, o mal europeu que vem do Canadá, com sua temporalidade contra-produtiva assombrada pela produção e sua dramática inoperância no que diz respeito à pesquisa pura (publish or perish [12] e publique short and dirty [13] para subir mais rápido). Ora, é também a pesquisa e a inovação que vocês coopeticionam no fim das contas, isn’t it? E o que é pior, as diretorias de Pesquisa e Desenvolvimento das empresas, tão paparicadas, não sabem mais como fazer. É a própria prova, as avaliações e as tabelas que condicionam toda a ação e todo financiamento não podem alcançar senão o que já é conhecido, decupado e repertoriado. Por definição, a novidade, a invenção, não entram ainda em nenhuma célula, assim como escapa tudo o que se situa na parte inferior da curva de Gauss: não nos damos conta da ausência de um desconhecido, dizia Lindon de Beckett! Daí vem o transtorno dos departamentos de pesquisa e desenvolvimento que se dão conta de que não produzem nada a não ser um ciclo vicioso, auto-engendrado, de dados-processos-critérios. Os únicos bem remunerados, mas em pânico intelectual, a processualidade não permitindo jamais a saída da processualidade, eles mordem a própria cauda constatando que não têm nenhum alcance sobre o real. Eles não tem sequer os meios de se autorizarem a ter bom senso, a tomar as coisas por outro caminho, um bom caminho por exemplo. Procura-se bom senso desesperadamente: é a aquisição do quali como último recurso. O quali face ao quanti torna-se a boia de salvação que alguns se oferecem, como quem vai ao psicólogo, perdão: a um coach.

Por trás das tabelas não vemos senão aquilo que já sabemos, aquilo que está diante do nosso nariz, com o que colaboramos, mesmo se profundamente nós o tememos e não o queremos – porque nos tornamos todos, mais ou menos, neuróticos da tabela...Poderíamos acreditar que as tabelas, que emolduram e enquadram, são limites que favorecem a invenção, como a sintaxe e a gramática para a língua, a versificação e as estipulações rítmicas para a poesia e, ainda mais precisamente, como os topoi, aqueles “lugares” ou “lugares comuns” da retórica antiga que todo bom advogado ou mesmo todo cidadão digno desse nome deveria conhecer para ser bem sucedido. A imensa diferença é que as tabelas não toleram nenhum desvio: qualquer coisa ou qualquer um, um item, entra ou não em uma célula da tabela. A grade da tabela não é uma seleção que não compromete nada, é uma formatação que exclui tudo o que não cabe nela. Em compensação, os lugares são um reservatório de inventividade, uma disponibilização de recursos, de proposições das quais nos abastecemos para argumentar, que não apenas toleram, mas suscitam ajustes inéditos, encorajam a inventividade dos desvios e das surpresas em relação à norma das expectativas. No caso das tabelas, a atividade da linguagem é sufocada; com os topoi, ao contrário, ela é estimulada em sua força criativa, apoiada sobre o tesouro das possibilidades e dos poderes experimentados. E é exatamente de política, stricto sensu, que se trata. Os filósofos o repetem, de Aristóteles a Hannah Arendt, (e eu creio fortemente que seja verdade, quer dizer,  que é melhor acreditar nisso): se o homem é um animal mais políticos que os outros, abelhas ou formigas, é porque ele fala, porque é dotado de logos, linguagem e razão, faculdade relacional em todos os gêneros. É por isso que a retórica dos topoi é tão importante para juristas ou advogados: qual acusação será aceita, sob que princípio geral, sob qual “categoria” deve-se situar um caso? O jogo, o espaço de liberdade, é aqui de fundamental importância, essa amplitude que orienta o saber-fazer e o signo da competência. Para melhor medir a importância da fabricação do fato – aquilo que no mundo da retórica judiciária se chama de fictio juris, ficção do direito, portanto -, é preciso e é suficiente que se tome um exemplo real: essa mulher que roubou no supermercado, ao invés de ser condenada por roubo, foi beneficiada com um não-lugar porque a acusação, o estado de causa, diriam os antigos, finalmente aceita pelo juiz, mudou. Vocês agora o saberão, ela não fez senão assegurar seu direito de garantir a sobrevivência de seus filhos: estado de necessidade... [14]

Outros tipos de avaliação são possíveis? As pistas são escassas. Uma “avaliação formadora” por contraste a uma “avaliação formativa”? Uma avaliação pelos pares, que se ateria a “avaliar sem classificar” – a condição que não se classifique por conta própria apesar de nós, uma vez que haverá avaliação...? Algumas recomendações simples, de competências, de finalidades, de tempo, de palavra, de escuta, de “respeito”, como se diz por aí.

O mundo de itens no qual vivemos é o avatar mais recente da fetichização generalizada. Bataille notava que “uma dilapidação de energia é sempre o contrário de uma coisa, mas ... ela só é levada em consideração colocada na ordem das coisas, transformada em coisa”. A energia do caso tornado coisa, última palavra de um sistema, digamos capitalista, cuja própria energia gira no vazio – ou no cheio, como preferirmos.

Notem que essa retificação combina muito bem com a desmaterialização e o digital, que permitem tratar os números e os fluxos. Talvez seja a última ilusão, e de todo modo a última competição pelo último prêmio : um humanismo numérico, humanidades numéricas. Muito dinheiro (só aí ainda existe!), porque a questão é controlar tudo o que, por essência e por vocação, escapa às tabelas. Numerizamos, então, drasticamente: numerizamos os corpus, os corpora, os corpos mortos. Muito útil para dominá-los, colocar-lhes questões, quase sempre, sumárias, às vezes sutis e obter respostas com aura de verdade científica. Não é falso que a massa crítica produza transições, torne visível fatos escondidos, faça surgir novas questões. É preciso reconhecer a importância da técnica, para não se deixar impor-devorar por ela e por aqueles que a conhecem. Mas é ferozmente claro que o big data e o data mining produzem, em primeiro lugar, o fechamento de um mundo vigiado, antes que se reinvente, talvez e se chegarmos lá, um novo mundo habitável, inclusive intelectualmente.

Do mesmo modo que a performance serve para avaliar o inavaliável, instam-nos a tabelar o intabelável, quer dizer, as humanidades. Conhecem a mais caricatural das declinações, que caga tudo? Designo-a: humanismo, humanidade, humanização. Vale a pena e custa caro. É a caricatura do que pode ser uma boa prática, mas porque a própria ideia de “boa prática” é a caricatura de uma prática boa. Uma das tabelas mais aterrorizantes: a da “humanização” – em que momento do fim da vida é preciso acariciar a mão de alguém que morre, falar em seu ouvido e quanto somos pagos para desenvolver o protocolo e depois usá-lo?

A margem é minúscula, tudo muda muito rápido. A boa intenção é sempre suficiente? Tomemos um exemplo de contenção. Trata-se de uma prática dura, cada vez mais frequente. Tentamos desenvolver protocolos, tabelas portanto, que indiquem o tempo e marquem a importância do gesto de enfermaria e do gesto médico. Decompor-tabelar para tentar, agora, não ir mais rápido sem esquecer de nada, qualquer que seja o caso, mas destacar o peso do gesto, desbanalizá-lo, colocá-lo em evidência como uma prática pesada. Servir-se disso não para ir mais rápido mas para ir mais devagar, não para diminuir o sentido, mas para levar à tomada de consciência, para extraí-lo de um quotidiano de uso corrente e reexibi-lo, reapresentá-lo como uma decisão difícil. A contrapelo.

O humanismo, que soava antigamente às minhas orelhas como uma velha ideologia de herdeiros duvidosos, filosófica e politicamente, tornou-se uma palavra de ordem de resistência. Não há mais outro lugar defensável, outra posição de recuo em um passado qualquer, é preciso trabalhar aí, e rápido, e juntos, para desenvolver novos modelos. Por enquanto e para mim, o mais longe das tabelas, mas o mais perto do que as humanidades digitais poderiam trazer de invenção, é preciso, é preciso: desenvolver todo tipo de modalidades do “entre”, com a tradução como melhor modelo prático, entidades não estabilizadas e redes de influência recíprocas, justamente não coisas fixas, corpus mortos, mais energeia e vitalidade de espantos simultâneos. Um multiculturalismo poliglota que complique o universal. Programa? Programa...

Seria preciso permanecer prisioneiro de classificações nas quais não acreditamos porque elas determinam os apoios que recebemos. Mas quem é o sujeito nisso? Há somente um sujeito no avião? Nós que não acreditamos, a França que não acredita, a Europa que não acredita, Shangai que não acredita? Por que não exercer nosso julgamento, começar a sair do círculo vicioso, iniciar uma linha virtuosa?

Mantenhamos firme a constatação, mas revertamos os efeitos: sim, os fatos-tabelados são uma ficção, a tabela que confunde previsão e predição é da ordem da profecia autorrealizável; sim, há performance, em todos os sentidos do termo, mas é justamente aí que podemos agir. Tomemos os efeitos a contrapelo, ao revés, servindo-nos de suas forças. Fabriquemos os fatos que nos convém. Tabelemo-os. Passemos conscientemente da performance (“ainda mais”, “mais um esforço”, segundo uma tabela que faz da qualidade um efeito da quantidade) à performance sob controle dos performers, motivados pelo mundo que querem ver: desenhemos com nossas tabelas, não mais atrás, mas dentro e fora, o mundo que queremos.

Falemos, façamos com que os tabeladores e os gradeadores conheçam as tabelas e as grades, os critérios, as categorias de julgamento que nos convém, fabriquemos para os administradores liberais a reflexão sobre as tabelas. A mínima modificação será massa crítica: como o índice de felicidade pública que modifica o PIB é um embrião de ironização adequado.

É uma maneira de fazer advir o mundo que se desenha – tomemos a performance pelos chifres, pela amplitude de seu sentido; não mais competição, mas performatividade. É nossa vez de jogar.

Governar é compreendê-lo e ajudar-nos nisso.

B.C.

[1] Obra coletiva com a contribuição de: Éric Alliez, Didier Bigo, Laura Bossi, Serge Bronstein, Fernanda Bruno, Catherine Caleca, Barbara Cassin, Julie Caupenne, Marie-José Del Volgo, Nathalie Georges-Lambrichs, Yves Gingras, Roland Gori, Jean-Jacques Gorog, Daphné Marnat, Christine Nicoulaud, Albert Ogien, Peter Osborne, Marie-Blanche Régnier, Claude Schauder, Christian Védie, Catherine Vidal (Paris, Mille et une Nuits, L’Appel des Appels, 2014).
[2] Expressão de Claude Shauder, proposta como alternativa ao título desta obra coletiva. *Nota das tradutoras: em francês, o título da obra é Derrière les grilles: sortons du tout-évaluation ou Por trás das tabelas: saiamos do tudo-avaliação. Vale, contudo, ressaltar que na língua francesa a palavra grille tem uma ambiguidade importante, pois significa tanto tabela quanto grade.
[3] Discurso de Nicolas Sarkozy na ocasião do lançamento da reflexão para uma estratégia nacional de pesquisa e de inovação, Eliseu, 22 de janeiro de 2009.
[4] Lembro alguns marcos: L’Appel des appels. Pour une insurrection des consciences, organizado por Roland Gori, Barbara Cassin, Christian Laval, Mille et une nuits, 2009; “L’idéologie de l’évaluation. La grande imposture”, Cités, 37, 2009; Alain Abelhauser, Roland Gori, Marie-Jean Sauret, La Folie Évaluation. Les nouvelles fabriques de la servitude. Mille et une nuits, 2011, e entre os mais recentes: Roland Gori, La Fabrique des imposteurs, Les liens qui libèrent; Angelique del Rey, La Tyrannie de l’évaluation, La Découverte, 2012; Albert Ogien, Désacraliser le chiffre dans l’évatuation du secteur public, éd. Quae, 2012; Recherche publique. Les années de destruction, dir. Chantal Pacteau, Syllepse, 2012.
[5] A autora refere-se à vitória de François Hollande (do Partido Socialista) sobre Nicolas Sarkozy (União por um movimento popular) nas eleições presidenciais de 2012 na França.
[6] Nota das tradutoras: o termo grego hybris significa desmedida, arrogância.
[7] Le Manifeste convivialiste. Déclaration d’interdépendence, Le Bord de l’eau, 2013. Manifesto Convivialista. Declaração de interdependência. Annablume, 2014.
[8] Nota das tradutoras: Primeiro ministro do Partido Socialista francês entre 1997 e 2002.
[9] Nota das tradutoras: Neologismo que conjuga competição e cooperação, ou uma competição cooperativa.
[10] Filme de Chris Marker, 1962.
[11] N.T. se utiliza em francês para descrever uma ação que vai acontecendo no futuro, mas que se descreve como ação concluída.
[12] N.T.: Publique ou pereça.
[13] N.T.: Literalmente, curto e sujo. Expressão que designa a baixa qualidade da publicação, algo como “Publique qualquer porcaria”.
[14] Julgamento que teve lugar em Poitiers, 5 de fevereiro de 1997, pelo juiz Laurence Noël
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