dossiê: situar/mover - corpo, território, política

Somos culpadas por sermos mulheres?

Pense em uma mulher grávida, que anuncia que gera uma menina, quais sentimentos surgem em você com este anuncio? Sejam honestas e honestos! Homens próximos, como irmãos, o pai e o tio, muitos tem aquele sentimento de proteção extrema, os amigos do casal já irão citar aquela frase - “Ah! o filho de beltrano tá aí, hein?” - ou frases do gênero. Alguns e algumas irão quase se lamentar por isso, por mais que não digam, e a palavra princesa, (sendo ela um substantivo feminino, ou um adjetivo neste momento) será dita milhares de vezes, palavra está que nos remete ao reinado, mulheres ditas “puras”, (faça uma busca no Google com a palavra princesa, e a Disney sairá em disparada na lista. Com isso observe quem são elas, cores, etnias, cabelos, estética, corpo) tradição, padrões e grandes expectativas a serem cumpridas ao longo da vida, você consegue ver violência nisso? Ainda não? Vamos lá!

Meninas crescem vendo padrões de corpos que devem ter - Meninos vendo padrões de corpos que devem desejar, o desejo de alcance e o desejo de possuir são iniciados neste período, onde meninas mais próximas aos padrões estabelecidos pela sociedade serão as populares na escola, e as que fogem disso serão as excluídas, isso não diz respeito apenas a relação homem e mulher, mas em relação a sociedade em geral, pois questões de orientação, identidade sexual  e rivalidade construída estruturalmente entre mulheres pela sociedade patriarcal começa a aparecer.

Meninas precisam exercer sua feminilidade, com seu cabelo ajeitado, vestido rosa, desejar ser mãe e cozinhar, pois este é o seu papel, e toda e qualquer mulher que fuja disso, será apontada, discriminada e não será bom o bastante para ser a “nova mãe” do futuro parceiro.

Tudo o que nos foi imposto, foi de forma violenta. Mas ao falarmos de violência, seja ela qual for, já entendemos que houve alguma agressão física, que alguém está machucado a ponto que qualquer um possa ver e se indignar, uma ferida aberta na pele, um olho roxo, alguns dentes a menos, sangue e cicatrizes do tipo que se tornarão notícia, e uma mulher aparecerá careca, sem sobrancelhas, com cortes no corpo, e o jornalista dirá em tom de indignação que isso precisa acabar, e todas podem ligar para o 180 e denunciar, que #somostodosmulheres. E afinal, isso sim é violento.

Mas você já ouviu alguma vez aquele cara que diz -“Mas eu nem sou violento, por que me chamam de machista? Mas eu até ajudo em casa, eu dou carinho, troco a fralda, e puxa, até coloquei o lixo na rua, lavei a louça e assumo meus filhos.”

Ou pior, -“Eu não saio para beber, e não chego muito bêbado em casa, não bato na minha esposa e filhos, trago o sustento pra casa, nunca deixei faltar nada.”

É com essas malditas frases que tentam manter o nível baixíssimo do mínimo ridículo de homens que se dizem “bons” e em desconstrução, com aquela chamada “tenha paciência, estamos em processo” mas que no fundo não querem rever os privilégios e sim, passar como alguém que luta e é contra a violência. Não estou aqui dizendo que não irão mudar, estou dizendo que precisam de mais esforços, mais noites sem dormir com aquela frase que falou achando que era normal e tomou várias por isso, ter um papo sobre rever os espaços com aquele super amigo que fala um monte de asneira que ofende as mulheres. Só assim, no incomodo, na necessidade, no total desconforto haverá de fato uma mudança real, a desconstrução não é simples, não é de fácil absorção, causará feridas que são necessárias para que as cicatrizes das mulheres possam se transformar em tatuagens de movimento e avanço.

As questões levantadas se abatem sobre todas as mulheres, nos colocando em um lugar de culpa e responsabilidade sobre tudo que ocorre conosco, seja, o filho que vai mal na escola, a comida que não está pronta, a barriga que apareceu, a calça que não cabe mais, ao estupro do parceiro ou de um desconhecido, porém quando combinamos os diversos sistemas de desigualdade como gênero, etnia, raça, classe, orientação e identidade sexual e discriminações como gordofobia e xenofobia entramos em lugares de opressões que se acumulam, onde as lacunas de direitos sobram e são preenchidas com violências cotidianas, que vão desde o xingamento “ingenuo” a menina negra na escola, a exclusão da menina gorda, a depressão que causa baixa autoestima, violências físicas, psicológicas, materiais  ao feminicídio como resultado final.

São estes acúmulos que precisamos olhar com um cuidado ainda maior, pois a estrutura patriarcal construiu todos os mecanismos de sua existência, através da construção das desigualdades que se retroalimentam.

Uma das sobreposições está na sexualização do corpo negro no Brasil, que vem muito antes das “globelezas”, mas desde o início das escravizações onde as mulheres negras eram escravas no trabalho braçal, como amas de leite e até escravas sexuais que eram estupradas por seus senhores, já que suas esposas eram tidas como puras e impróprias para satisfazer seus desejos carnais. Aqui nasce aquela frase racista, “vai atrás de suas negas”, que muitas ainda dizem como se fosse uma simples frase sem contexto histórico de exploração de corpos negros que foram estuprados ao longo dos séculos, e que ainda, infelizmente continua a alimentar as estatísticas, pois segundo o IPEA em março de 2014, 51% das vítimas de violência sexual eram mulheres negras.

Sabemos ainda que existe uma previsão de estes casos serem ainda 10 vezes maiores que o contabilizado pelas delegacias, já que estes crimes ocorrem muitas vezes por pessoas próximas a vítima, como o próprio parceiro, irmãos, pai, tios e amigos da família, e muitos nunca virão a público por motivos de medo, insegurança, culpa e/ou por nunca saberem que foram violentadas sexualmente, pois estavam apenas cumprindo o seu papel de “esposa”.

Com as culpas e responsabilidades que nos são impostas, a discussão precisa ser vista com dados, cutucando as feridas da sociedade, chegando à uma das raízes do moralismo arcaico e racista.

Segundo o censo de 2010 do IBGE, 14,1% das adolescentes grávidas eram negras, contra 8,8% das adolescentes brancas, números estes que caíram em comparação a 2000, mas ainda assim, existe uma desigualdade em tratamento com o estes corpos, onde a proporção de mortes de mulheres negras em decorrência de um aborto é de 2,5 vezes maior que em grávidas brancas, segundo o trabalho do Instituto de Medicina Social do Rio de Janeiro, pois a maioria destas não possuem recursos para ir a uma clínica clandestina que por sua vez também oferece risco, mas ainda assim possui cuidados mínimos. Mulheres negras, sem este recurso optam por métodos perigosos como a ingestão de comprimidos controlados e vendido de forma ilegal, à introdução de materiais pontiagudos com a intenção de provocar um aborto de forma manual. Eu sei, parece tenebroso, mas é sim, precisamos colocar na mesa que métodos são estes que podem matar essas mulheres, causar feridas físicas em seus corpos, e feridas ainda maiores psicologicamente que serão levadas por toda a vida, não pelo aborto, mas pela condição de optar em quase morrer para “salvar” um trecho de sua vida que poderá mudar por completo se seguir com o que não deseja. Isso, se ela sobreviver.

São por estas condições que a legalização do aborto precisa ser discutida de maneira intensa, não estamos falando de mulheres que engravidam e desistem, ou de transformar o aborto em um método contraceptivo, ou que todas as mulheres serão obrigadas a abortar. Estamos falando de um sistema que culpa essas mulheres por serem mulheres, e protege homens por serem homens. Para estes últimos o “aborto” é feito no momento em que decidem não assumir a paternidade. No caso das mulheres, está em jogo sua própria vida em qualquer decisão que tomarem, seja dando prosseguimento a uma gravidez indesejada, ou abortando e TALVEZ seguindo.

O que discuto não é o tirar ou não tirar a vida, é o se manter viva e completa. É a chance de se reconstruir uma vida que não nos foi dada e sim tomada pelas mãos de forma violenta.

Reconhece as violências? Vê os níveis de violências causada que se sustentam na sobreposição? Você é violento com uma mulher ao achar que faz demais ao lavar uma louça? Você é violento quando deseja mulheres negras, mas só se relacionou de fato com mulheres brancas? Você é violento ao achar que sua parceira é obrigada a transar só porque você quer? Você é violenta e violento ao achar que mulheres negras são mais fortes? Você é violento ao achar que é um homem exemplar? Você é violento ao proteger meninas, ao invés de ensinar meninos a respeitá-las?

Me consideram violenta porque acham demais eu dizer que estou viva e completa, e sou quem sou por uma escolha drástica no meu próprio percurso do viver, porque eu grito todas as vezes que sinto que sou desrespeitada. Porque acham violento quando imponho minhas condições quanto mulher negra periférica, dona de um corpo que passou a ser dela, ao entender o porque acreditavam que ela não o possuía, porque acham violento eu fazer apenas o que desejo, porque acham violento eu não aceitar mais coisas que suportava anos atrás, porque ainda acham violento você ser mulher negra e DONA de si!

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Edição 3