dossiê: situar/mover - corpo, território, política

O corpo larvar, ou a máquina de produzir anfíbios

O cortador de água

Em frente à casa deles, bem perto, passava essa linha do trem (T.G.V.) [1]. Eram pessoas que não podiam pagar o gás, nem a luz, nem a água. Viviam numa grande pobreza. Um dia veio um homem para cortar a água na estação de trem onde eles viviam. Ele viu a mulher, silenciosa. O marido não estava. A mulher estava atrás dele com uma criança de quatro anos e uma pequena, de um ano e meio. O empregado era um homem como todos os outros. Esse homem eu o chamei de O cortador de água. Ele viu que era alto verão. Sabia que era um verão quente, ele também o vivia. Ordenaram-lhe cortar a água, e ele o fez. Ele respeitou o seu emprego do tempo. Deixou a mulher sem água para dar banho nas crianças, ou para lhes dar de beber.

Essa mesma noite a mulher e o seu marido pegaram as duas crianças com eles e foram dormir sobre os trilhos do T.G.V. que passava diante da estação de trem abandonada. Morreram todos juntos. Andam cem metros. Dormem. Deixam as crianças tranquilas. Fazem-nas dormir talvez com algumas canções.

O trem parou, dizem.

Aí está, essa é a história.

Duras, M. A Vida Material

O corpo larvar, ou a máquina de produzir anfíbios

Há tantos anos venho tentando pensar o corpo. Suas relações com a palavra.  O lugar que ocupa na nossa cultura. Como o corpo se escreve. Escreve? O corpo? Nas suas marcas. Nas minhas, nas nossas. Cheguei numa época em que já não se festejava tanto o corpo. Sua apoteose havia se transformado numa série bem-sucedida de noções pasteurizadas. Ele já não incomodava a cultura nem o status-quo. Esse corpo. Todo lustrado. Ordenaram-lhe fazer. Ele fez. Começou a gerenciar bem o seu emprego de tempo. Vez por outra um estimulante. Para fazer mais. Melhor. Fazer sempre melhor. E sempre. Sempre mais. Aquela reivindicação que apostava numa saída para os corpos, em sua liberdade sexual. Em sua experimentação constante de outros modos de vida. Que minorasse o ar rarefeito das hipocrisias morais, das ideias de sucesso e perfeição. De um mundo limpo. Brilhando. Lustrado. Branco. Estável. De casamentos eternos. E herdeiros imutáveis. Cheio de iguais sentindo-se sempre muito diferentes. Não é que quando tenha começado a pensar o corpo tudo isso já não valesse. Ainda vale. Só não estava mais ali. Na sala de jantar. Os anos sessenta e setenta realmente proporcionaram para a cultura ocidental uma verdadeira onda de apropriação dos nossos corpos. Queimar o sutiã não se circunscreve somente no seio do discurso feminista da época – ele diz para todos os corpos que cabe a cada um de nós tomar o seu próprio corpo. E ao mesmo tempo vai mais longe e diz que, paradoxalmente, isso só se faz junto. Entrelace fundamental esse aí. Meu corpo é meu quando todo mundo tem também o seu. A liberação é sempre um acontecimento comum. Da ordem do comum.

Mas hoje, vendo em perspectiva é preciso também dizer que a potência liberadora dos setenta acabou fetichizando nas décadas subsequentes a ideia de um corpo próprio [2] no decorrer dos oitenta, alastrando-se ainda e muito. Isso não tem nada a ver com apontar o dedo. Obviamente essa trama não estava ali definida, sequer almejada. Mas a reflexão é importante. Primeiro porque nos ajuda a não olhar para essa época mitificando-a, acreditando que tudo ali já foi feito ou, nessa direção, inventado. O que acaba nos desvalorizando ou nos descomprometendo para com as nossas tarefas e reivindicações hoje. Segundo porque é preciso mesmo entender que as sociedades não necessariamente conseguem operar as reconversões subjetivas necessárias para por em funcionamento as potências liberadoras que esses acontecimentos, digamos assim, esses acontecimentos disrruptivos e criativos promovem. [3]  E por último, porque já é hora de saber, que as nossas sociedades, liberais, regidas por esse sistema pós-capitalista, geridas por máquinas biopolíticas sofisticadas, enfim, como buscamos aqui e ali apontar, essas sociedades vão sempre se apropriar das forças liberadoras dobrando-as em algo passível de ser consumido. É preciso estar atento e forte... E ver que, por exemplo: a tanga do Gabeira tornando-se sim liberadora para um conjunto de potencias erotizáveis do corpo masculino , assim como desestabilizando os esquemas rígidos entre masculino e feminino, ou ainda dando visibilidade ao que ali ainda não sabíamos bem o que era, não está imune de ser apropriada posteriormente, numa máquina em que o corpo masculino homoerótico deva obedecer a determinadas regras de beleza, consumindo modos e plataformas de desejo, sem no entanto efeminar-se em demasia. Numa sociedade machista como a nossa o homo erotismo masculino é aceito em determinados regimes e espaços, ganha vulto de consumo e poder de visibilidade, desde que esse corpo, cuidado, trabalhado e monitorado não se fragilize em demasia no universo ultra efeminado das ‘bichas’. Essas por sua vez acabam assim subalternizadas, num espaço inferior de consumo dessa plataforma desejante. Note o acoplamento econômico agindo diretamente sobre os corpos a serem construídos, ‘liberados’ para serem finalmente consumidos.

Nada disso quer tirar o brilho da purpurina, nem os efeitos surpreendentes. Trata-se de rever as conexões liberadoras dos fluxos desejantes, assim como de ver a apropriação ‘aparentemente’ liberadora, mas que acaba por acachapar novas potências, conexões e forças que ampliem a possibilidade de inscrição dos corpos, dos corpos sempre múltiplos no seio da nossa cultura. De fato, o que estou, isso sim, afirmando é que o destino liberador das potências marginais, políticas, descentradas, comunitárias, abertas e alternativas foram apropriadas na nossa sociedade com o intuito de localizar as reivindicações do corpo num mundo brando, branco, de consumo, perfeição, força e beleza. Ou seja, os corpos que não entraram naqueles anos [4] são esses que hoje vem finalmente pedir o seu lugar. Corpos que não se enquadram. Feios demais, gordos demais, frágeis demais, negros demais, pobres demais, putas demais, bichas demais aos olhos dessa máquina com ares higienistas e fascistas que não para de crescer em nossos tempos atuais. São esses mesmos corpos que hoje vem finalmente recusar o que a eles demos. Ou não demos. Incomodando as nossas certezas. Incomodando a nossa tão benevolente abertura ao diálogo. Eles agora não pedem passagem. Nem por ora, justificadamente, querem dialogar. Dialogar, nesse momento preciso, nessa passagem dura e necessária, significaria, entendendo o lastro da nossa experiência pregressa, pedir de novo licença. E isso é o que por ora precisamos a aprender ouvir. Esse modo, as vezes um tanto abrupto, essas certezas que afloram e afrontam os ambientes que antes podiam dedicar a maior parte de seu ‘emprego do tempo’ às dúvidas e aos questionamentos, essa certeza, é a necessidade premente de quem não pôde nunca falar. É a tomada mesmo de suas vidas em suas mãos. É a busca para que cada um possa dizer em qual assento quer ou não sentar. É pegar a cadeira. Fazer girar a roda. Que tiremos nós também a nossa bunda dali. Que a roda gire. E esse espaço apertado possa, desse modo quiçá, nessa dança das cadeiras, começar a acolher um número maior de bundas. E não apenas as nossas que se creem limpas porque brancas, assentadas, porque de direito. Revisão radical da noção de direito ressurge. Discussão a ser vista em múltiplas dimensões. Evitar que o lugar de fala torne-se tão sedentário quanto os nossos latifúndios brancos do pensamento será também um desafio. Não se apegar em demasia às cadeiras vale para qualquer bunda. Sim, peço eu aqui licença para dizer apenas isso.

*

O corpo do cortador de água não parou de trabalhar. Ele nunca mais deixou de cortar a água. Acabou transformando-se numa peça desse barco sem leme. Barco esse que incrementa sempre um novo estimulante às peças cada vez mais ágeis e produtoras. Nesse arranjo das sociedades do controle perdemos aquelas utopias das misturas que eram muitas vezes alimentadas pelos compartimentos divididos das sociedades disciplinares. Aqui parece que já estamos imersos sempre numa grande mistura. Ilusão sem fim das máquinas hiper-realistas do controle. Dificilmente experienciamos hoje algo próximo às misturas, às zonas indiscerníveis entre o indivíduo e o coletivo, entre o eu e o outro. Zonas essas que, se vividas em sua potência afirmativa e liberadora, tornam-se fundamentais para que se crie outro espaço comum. Uma vida comum. Uma existência juntos. Uma experiência partilhável. Um comum. E não um corpo político monolítico. Instrumento das decisões sempre de uma cabeça superior: o partido, a ideologia, a razão, o pai, a mãe, o presidente, o congresso. Uma cabeça só, una e indivisível orientando e aglutinando esses membros diversos, abertos e insubordinados dos corpos vivos. Não! Se algo aprendemos com eles lá atrás é que a experiência dos corpos políticos não são passíveis de serem unificadas. Aglutinadas. Que o corpo político não é um só. Ele se cria e se estabelece sempre nas relações. Nos encontros. Na abertura ao estranho e ao desconhecido. Ao outro. Ao que não sou. Ao que me desaloja. Me tira de casa. Se pudesse ter ido às ruas. E não tivesse ido dormir naqueles trilhos. Se houvesse uma rua me chamando. Onde coubessem também os filhos. Não ao desabrigo. Essa rua sempre teve. Já tinha passado por lá também. Se a minha casa não tivesse sido removida. Se aquele esgoto não inundasse todo dia o cheiro da minha sala de jantar. Se houvesse rua e não apenas ruela. Se não tivessem jogado o corpo dele naquele beco em que morava. Quer saber o que é o corpo? O corpo aqui é cadáver. E vocês ainda vem querer dizer que não entendem a nossa alegria. Bestas. A vida. A vida. Essa calmaria não bate nessa casa. O mar já tinha derrubado a ponte. A coisa aqui é revolta. É ruidosa. Faz barulho. Ninguém ouve com esse Rádio nessa altura. Vocês querem a câmara de música. Eu toco violino. Agudo. Escuta. Ele corta sobre os trilhos os teus dentes. O meu violino é feito de aço.

*

Há muitos anos atrás, quando comecei a estudar as relações entre corpo e escrita para o meu mestrado sobre a obra Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, deparei-me com essa citação de um historiador inglês. Esse trecho sempre me pareceu muito forte, daqueles que traçam um corte entre o isso e o aquilo. Ainda não sei bem porque, mas vou tentar descobrir com vocês. Para a DR. Ele dizia que “muito antes de Descartes, um dualismo fundamental invadiu a mentalité ocidental; ser humano significava ser uma mente encarnada ou, na formulação de Sir Thomas Browne, um “anfíbio” (...). A mente é canonicamente superior a matéria”. [5]

Fiquei pensando no laguinho da minha infância. Cheio de sapinhos. Naquela época imaginava que eram esses os sapinhos que davam na boca da criançada, se a gente saísse beijando por ali. Estranha relação entre o controle da erotização do corpo na infância e os seres anfíbios. De todo modo essa citação me choca ainda porque coloca o corpo nessa escala evolutiva como uma espécie de máquina larvar. Despreparada para a vida terrena. Hoje olho para isso e gosto da citação. Sou capaz de subvertê-la, porque entendo justamente que a potência do corpo reside justo na sua capacidade larvar de resistência. Na sua plasticidade que lhe permite habitar dois, ou n mundos. Esse corpo terrestre, ditado pela ciência, esse corpo delimitado pelo arranjo físico ou fisiológico, orgânico ou anatômico nada mais é do que apenas aquele conceito de corpo que a mentalité ocidental fez triunfar. Talvez o mais frágil. O que se ocupa em demasia em nascer, em morrer. Braço forte do biopoder. A resistência larvar aponta para processos em construção. Para forças mais móveis e plásticas. Para algo menos duro, mas ainda assim capaz de se impor. Uma tonalidade afetiva que deve ser vista a sério. Uma discussão que não pode mais ser posta para debaixo dos tapetes. Fazendo-se sempre anexo ao mundo razoável e sério das nossas produções discursivas. Desestabilizar os lugares estabelecidos. Abrir os trilhos paralelos. Povoar de caminhos possíveis aquelas retas. Dobrar o aço. Voltar cem metros e ocupar com aquela família a empresa de água. Descobrir os meandros que vem escasseando as nossas energias. Abrir os discursos duros, científicos, econômicos, psíquicos, filosóficos para todo mundo poder ali falar. Entender. Discordar. Sair correndo com aquela família do trilho. Correndo. Mais cem metros. Numa velocidade ainda maior do que a eletricidade do trem. Os corpos juntos. Uma energia desconhecida. Ainda hoje resistente à mentalité ocidental. Anti-anfíbia. Multiplicar sapinhos. Criar contágios de vida. Tudo isso simplesmente porque sei que ali onde eles estavam um dia esteve parte de mim. Porque meu corpo não se termina numa linha geométrica nem em uma linhagem genética. Somos diferentes. Justo porque assim, ali onde somos diferentes é também onde você pode em mim viver.

[1] Trem de grande velocidade, criado em 1981 na França, o protótipo com motor a gás e todos os outros são propulsionados por motores elétricos.
[2] Próprio aqui em seu duplo sentido: o de pertencer a cada um (de propriedade), mas também o de limpeza.
[3] Vejam sobre isso o texto de Gilles Deleuze “Maio de 68 nunca existiu”. In: A ilha deserta e outros textos.
[4] Óbvio que não há aqui nenhum compromisso com a totalização da história desse período. Tampouco nenhum desejo de arranjá-la numa linearidade apaziguada. Muitos acontecimentos no decorrer dos anos oitenta e noventa foram esburacando essa apropriação pasteurizante dos corpos insurrectos dos sessenta e setenta pelas forças do biopoder. Nesse contexto não poderia deixar de citar a construção e o surgimento do Movimento dos Sem Terra. Dentro dele da escola do MST, trabalhando finalmente no Brasil com o método Paulo Freire. Ainda em decorrência dele a contaminação que o MST provocou nas cidades e na criação do Movimento dos Sem Teto, alguns deles ainda hoje fundamentais ou na base de ocupações de resistência profunda nos grandes centros urbanos.
[5] Porter, Roy. “A História do Corpo”, In: BURKE, Peter.(org.) A Escrita da História: novas perspectivas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992. p.303.
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Edição 3