Dossiê: Magia e reprodução

O conhecido versus o interdito

“O aborto já deveria estar obsoleto.
E eu – e provavelmente várias outras feministas – desejaríamos que ele fosse obsoleto
Porque o aborto não é um valor em si – é simplesmente o direito à escolha.
Esse sim um valor essencial

Betty Friedman

‍Os recentes resultados da pesquisa do Instituto Patrícia Galvão em parceria com o instituto Locomotiva, que datam de dezembro de 2017, merecem atenção. Os institutos concluem: o grau de proximidade influencia a opinião que os brasileiros têm sobre aborto. Os números são os que seguem:

O que essas cifras nos dizem? Além de mostrar que o aborto é uma questão que está próxima da vida de milhões de pessoas, comprova que a interrupção da gravidez já é aceita por parcela importante da população dependendo da situação.

Apesar da maioria dos brasileiros e brasileiras se declararam contrários à interrupção da gravidez, 8 em cada 10 brasileiros e brasileiras apoiam a realização dos direitos reprodutivos nos casos que seguem:

Em resumo, 81% dos brasileiros e brasileiras são a favor da interrupção da gravidez caso a mulher esteja diante de uma dos casos acima. E há um número ainda mais interessante: 75% dos que se disseram contrários ao aborto em princípio, quando colocados diante da questão sem nenhuma nuance, se mostraram favoráveis à interrupção da gravidez diante destes casos concretos.

Além disso, 8 em cada 10 brasileiros e brasileiras acreditam que o aborto deve ser tratado como tema de saúde. Notícia excelente. Apenas um em cada 10 defendem que aborto é caso de polícia.

Enfim, diante da frase “ eu jamais interromperia uma gravidez”, metade das mulheres questionadas afirmaram que concordam com a a afirmação. Mas 33% disseram não concordar nem discordar. E 16% afirmaram discordar.

Pode não haver a compreensão total do que significa experimentar essa realidade, mas há a disposição de respeitar aquelas que a experimentam e dar a elas o direito de escolha. Trata-se de um avanço considerável para o novo normal. E os resultados nos oferecem, a nós, feministas em disputa pelos direitos reprodutivos, dicas de suma relevância para enfrentar o conservadorismo e as desqualificações constantes às nossas lutas.  É possível assumir posturas mais progressistas ao mediar afirmações frias e impermeáveis com o repertório concreto da experiência da maioria que conhece mulheres que fizeram aborto. Quando defrontados com o conhecido, a práxis, o dia-a-dia,  a discussão ganha corporalidade: um rosto, uma trajetória, uma história. É recheada de afeto. E slogans, enfim, deixam de ser dísticos – significantes vazios e repetitivos – para tornarem-se vivência cotidiana..

Diante do dístico, o Brasil acessa o que não viveu, e dessa forma responde com receio e medo do novo. Medo que o conservadorismo alimenta e  cultiva. Diante da vivência, contudo, da proximidade, as reações extremas e a defesa de punição privativa de liberdade tendem a ser diluídas e substituídas por compreensão. Quiçá acolhimento. Ficam para as feministas uma série de lições que podem ser assim resumidas: a proximidade dissolve tabus. A narrativa que mobiliza o conhecido  é capaz de enfrentar o  interdito.

Blacklash:

Os ganhos do feminismo na construção de uma narrativa a respeito dos direitos reprodutivos, baseada nas evidências acima, capaz de transformar concepções leigas ou conservadoras e ter impacto na legislação, não passará impune. Nenhum ganho passará impune. O patriarcado há de se articular para reverter qualquer avanço.

E nessa articulação, a desqualificação da luta feminista é sempre mobilizada: o famoso blacklash. Termo que ainda carece de tradução precisa, mas que remete a uma experiência bem conhecida por nós, mulheres brasileiras. São os argumentos arregimentados pelo patriarcado para transformar a luta feminista em algo sem sentido ou fundamento. Não importando as evidências.

Leiamos Faludi no Brasil, agora mais do que nunca.

Em 1991, a feminista norte-americana Susan Faludi ganhou o prêmio Pulitzer com a obra “Backlash: The Undeclared War Against American Women”. À época, Faludi identificava um grande movimento de retrocesso cujo objetivo seria voltar o relógio aos anos 50. Duas premissas centrais orientariam este movimento:

a) a ideia de que o feminismo teve conquistas reais e que mulheres e homens já seriam, nos Estados Unidos dos anos 90, suficientemente iguais no que tange aos papéis de gênero;

e b) a noção de que o feminismo seria portanto, um exagero, algo desnecessário cujo resultado seria cruel para as relações íntimas, e desagregador no âmbito dos projetos políticos.

Tais premissas teriam sido, a princípio, articuladas por uma nova direita que surgira sob a presidência de Reagan no anos 1970 e se tornara mainstream nas décadas seguintes. Contudo, Faludi é clara ao nos lembrar que tais mensagens são repercutidas também pelo que a autora chama de emissários da esquerda. A hostilidade da esquerda diante do feminismo seria, enfim, parte de um fenômeno maior de rearticulação do patriarcado frente às conquistas das mulheres rumo à igualdade.

Em tempos de Rebecas e Rosas, de Manifestos e reações agressivas. Em tempos de retrocessos, o backlash se disfarça de infinitas maneiras: está no despudor do engravatado que em Brasília nos retira direitos aos risos, bem como no homem de esquerda, de terno de veludo, que aponta excessos dos supostos movimentos identitários, acusando-os de ignorar a luta de classes (quando sabemos que homens brancos ocupam há séculos o topo da pirâmide social).

Atenção para o refrão: precisamos estar atentas e fortes. Esquivar-nos das tentativas de manutenção do status quo. Desde as que se traduzem na desfaçatez das comissões majoritariamente masculinas de Brasília até as que se disfarçam em  debate iluminista e iluminado. Que lança mão de Kants e de cânones do pensamento político brasileiro para que tudo permaneça, os privilégios sejam garantidos, e a luta feminista jogada na vala comum do exagero. Quantas vezes não fomos chamadas de exageradas?

Não temos tempo de temer a própria morte. Nem de gastar latim com aliados que precisam ser paparicados. Estamos mudando o mundo. Nas ruas, nos corredores dos três poderes, nas redes. Os cães podem ladrar pois nós passaremos cada vez mais fortes. Nuas, pintadas de roxo. Cantando e dançando. Aprenderemos a refinar nossas narrativas para transcender o outono que nos querem impor.

[1] “By now, abortion should be obsolete. And I – and probably a lot of other feminists – wish it were obsolete, because abortion, in itself, is not a value – it is simply the right to choose, which is an essential value.” Betty Friedan
[2] Blacklash: a guerra não declarada contra mulheres americanas.
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Edição 4