dossiê: situar/mover - corpo, território, política

Barbie, Miss e Feminismo

Que relação existe entre concursos de beleza, a boneca Barbie e o feminismo? Aparentemente, nenhuma. Eternamente jovem e sempre sorridente, a Barbie com sua cabeça removível e suas medidas corporais improváveis só podem irritar as mulheres cuja sensibilidade feminista está minimamente desperta. As preocupações existenciais da Barbie, que giram basicamente em torno da escolha de sua roupa, sua bolsa e do seu cachorro, parecem de fato estar muito afastadas das preocupações feministas. E no entanto! O vínculo entre a Barbie e o feminismo não é tão absurdo assim, já que, quando nos anos 1950 Ruth Handler propôs a seus colaboradores masculinos da Mattel (marca que ela fundara com o marido Elliott Habdler, em 1945) criar uma boneca com peitos, seu projeto foi inicialmente rejeitado de cara. É preciso dizer que, naquela época, Ruth Handler era a única mulher na equipe da Mattel. Desde o início, o corpo da Barbie causou problemas, mas estes mudaram de natureza segundo a época. Nos anos 1950, o que incomodava os consumidores americanos eram seus peitos e sua cinturinha, que lhes davam a aparência de uma pessoa adulta e, assim, diferenciavam-na das bonecas para brincar de mamãe, muito populares nessa época nos Estados Unidos. Era óbvio que com seus peitos, sua maquiagem e seus acessórios fantasiosos, Barbie não estava muito adaptada ao papel de um bebê, babando no fundo do berço. E simultaneamente retirava das meninas a possibilidade de brincarem de mamãe. Ora, se uma boneca não produzia a desejada relação imaginária entre o bebê e sua mamãe, para quê que ela serviria mesmo? Essa era a incerteza que parecia preocupar os colegas de Handler, enquanto o objetivo da co-fundadora da Mattel era justamente o de criar uma boneca nova que permitisse que as meninas se projetassem em outros papéis além do de mãe. Para os Estados-Unidos da década de 1950, tratava-se portanto de um gesto terrivelmente militante. A Barbie da época não tinha nem filhos, nem marido, nem mesmo cozinha!  Foi só mais tarde que, após diversas solicitações dos consumidores, Ruth Handler decidiu criar o Ken. Desprovido de personalidade, com seu sorriso abestalhado, o boneco sempre permaneceu na sombra da Barbie, inclusive em números de venda. Eis o paradoxo. Barbie se tornou hoje o símbolo de muitos dos males próprios ao mundo capitalista: o consumismo compulsivo, o sexismo, a objetificação do corpo feminino e sua sujeição às fantasias sexuais dos homens, tudo aquilo que tinha sido pensado inicialmente como verdadeiro instrumento de emancipação e diante do qual os homens ficaram desconfiados por muito tempo.

A história da Barbie, e principalmente a re-semantização da boneca que aconteceu durante a segunda metade do século XX, me parecem oferecer um bom ponto de partida para refletir sobre o lugar que vários grupos ameríndios reservam hoje aos concursos de beleza. As competições cujo objetivo é eleger uma Rainha, uma Princesa ou uma Miss, são regularmente organizados pelos indígenas em todo o continente americano, na ocasião de diversas festas (Dia do Índio no Brasil, festas de Santo na Guatemala, aniversários nas comunidades nativas do Perú, pow-wow nos Estados Unidos e Canadá etc.). Apesar de todos esses concursos serem amplamente inspirados nos concursos nacionais, eles mesmos modelados nas mises en scènes espetaculares de Miss World e Miss Universo, fazem aparecer lógicas e questões singulares que às vezes estão em ruptura com os grandes espetáculos televisivos.

Enquanto nestes últimos trata-se de escolher uma Miss cujo corpo corresponderia melhor aos padrões cada vez mais universalizados de beleza e de feminilidade (universais porque as vencedoras dos concursos nacionais participam depois dos concursos de Miss Universo), as candidatas indígenas ao título de Rainha, mais do que seduzir o júri, devem sempre demonstrar um apego a sua cultura, um domínio perfeito de sua língua materna, um engajamento político pelo seu grupo, assim como o conhecimento profundo das técnicas artesanais e dos saberes ancestrais. “It’s not a beauty pageant!” (Não é um concurso de beleza!) defendem os organizadores e participantes dos diversos concursos de Miss indígena nos Estados Unidos, chamados antigamente de “concursos culturais”. Que se trate do concurso de Miss Algonquino, Esquimó, Navajo ou Cree, ele é uma etapa importante na formação da liderança feminina, durante a qual as jovens moças desenvolvem suas capacidades oradoras e aprendem sobre a história e os direitos dos povos indígenas no mundo inteiro.

Os etnólogos norte-americanos insistem na importância dos discursos das candidatas indígenas durante os concursos de beleza, quando evocam os problemas, muitas vezes gravíssimos, ligados à vida cotidiana nas reservas: ausência de escolas em algumas comunidades, poluição do meio ambiente, síndrome do alcoolismo fetal, assim como a perda e o esquecimento da língua ou o declínio da transmissão dos conhecimentos tradicionais. Essa parte discursiva e nitidamente militante da competição poderia ser interpretada como um contraponto necessário às imagens muitas vezes exóticas e folclóricas de indianidade encenadas durante o espetáculo que, apesar de agradar ao público, pouco têm a ver com a vida contemporânea das mulheres indígenas. É justamente essa disparidade induzida pelos concursos, entre a representação romântica da autoctonia e a realidade, que as candidatas indígenas denunciam sistematicamente. É de se notar que o laço estreito entre o concurso de Miss e a política não se deve a uma particularidade ameríndia, mas sim americana. Sarah Palin, terceira colocada no concurso de Miss Alaska em 1984, governadora desse estado entre 2006-2009 e candidata à vaga de vice-presidente de John McCain em 2008, está longe de ser um caso isolado. Apesar dos organizadores do Miss America insistirem no fato de que seu concurso de beleza tornou-se o maior sistema de bolsas de estudo nos Estados Unidos, que permite a cada ano que centenas de jovens mulheres integrem uma universidade e preparem suas carreiras profissionais, a questão que subsiste é por que essa ascensão social e profissional das jovens mulheres deveria depender de notas que elas recebem por desfilar de biquini e da graça com a qual elas conseguem (ou não) andar de salto alto.

Os concursos de beleza na Amazônia indígena são simultaneamente mais recentes e muito menos institucionalizados do que os da América do Norte. Ao longo do meu trabalho de campo entre 2009 e 2012, assisti a três concursos de Rainha que foram organizados nas aldeias Kakataibo e Shipibo do Rio Aguaytia, na Amazônia peruana. O concurso acontece a cada ano, durante a grande festa da aldeia que reúne inúmeros convidados vindos da região toda. Enquanto os homens demonstram força e habilidade no campo de futebol, as moças púberes desfilam no palco imitando gestos, modos de fala e códigos vestimentares das mulheres brancas. O concurso de beleza kakataibo está intimamente relacionado com a metamorfose corporal. A moça que tem mais chances de vencer é aquela que se mostra capaz de dissimular sua timidez, colocando-se em cena com maior ousadia e segurança. Mesmo se todas as moças púberes podem se candidatar ao título de Rainha, a participação no concurso requer um treinamento prévio dispensado por professores mestiços. Durante este treino, elas devem aprender a andar no palco, a desfilar corretamente, a falar alto, a saudar o público com elegância e a mandar beijos sem jamais deixar de sorrir. Com ajuda dos professores, as candidatas também preparam sua fala que será declamada no dia do concurso e na qual elas evocarão o orgulho, a alegria e a gratidão sentidos pela oportunidade de participar do evento. As moças aprendem assim até mesmo a falar “como os mestiços”, o que não é pouca coisa se consideramos que a língua, ou mais especificamente a técnica do falar, é para os Katataibo um potente produtor de diferença social. Falar como mestiço significa falar forte, falar diretamente e com ousadia, sempre mirando o interlocutor nos olhos. Estilo de expressão que difere muito da forma Katataibo que, pelo contrário, falam baixo, com voz monótona e evitando os olhares dos interlocutores, cobrindo-se a boca com a mão em sinal de respeito. Em suma, pede-se às moças que rompam radicalmente e publicamente com seu modo de ser usual, no qual a timidez e a vergonha são regra assim como é regra evitar o contato com homens estrangeiros. Para poder participar dos concursos, é preciso de certa forma “desindianizar” seu corpo para aproximá-lo do corpo mestiço.

Como dizem Anne-Christine Taylor e Eduardo Viveiros de Castro: “O corpo humano é a coisa mais valorizada neste universo [ameríndio] porque ele materializa a sociabilidade” (2006:149).  Apesar dessa dimensão relacional e consubstancial do corpo ser sempre muito importante para os Kakataibo, a adoção dos concursos de beleza e sua popularidade nas comunidades indígenas fazem emergir uma concepção simultânea do corpo enquanto capital pessoal, podendo tornar-se uma fonte de sucesso individual e de empowerment. Isso evidentemente tem um impacto no forma como as adolescentes indígenas tratam seus corpos. Em primeiro lugar, muitas desejam ser magras, o que as leva a adotar práticas bulímicas. É o caso da ex-Rainha Kakataibo. Estudante na cidade, ela horrorizou os pais quando visitou a comunidade pois forçava-se a vomitar após cada refeição. Ela admitiu abertamente que não podia mais comer com sua família indígena pois temia engordar. Contrapondo-se a esse ideal forjado pelos adolescentes, os Kakataibo mais velhos não apreciam corpos magros, associando-os geralmente à doença e à alteração das relações sociais. Um deles me disse certa vez: “Nossas mulheres se chamam “ ‘o xanu” (mulher anta) ou “ñoia xanu” (mulher porco) porque gostamos de mulheres gordas e fortes como esses animais”. Os corpos belos são aqueles que, sem serem obesos, são corpulentos, robustos, fortes, capazes de trabalhar, de produzir coisas que podem ser partilhadas e que consequentemente podem produzir belas relações com os outros.

Por outro lado, um número cada vez maior de jovens mulheres faz aplicações de injeções contraceptivas no posto de saúde, de modo a reduzirem as ocorrências de gravidez e sobretudo espaçá-las no tempo, conquistando assim maior mobilidade e autonomia. Se a divisão binária e rígida entre o “exterior dos homens” e o “interior das mulheres” não é mais completamente pertinente para os Kakataibo, o espaço doméstico, da comensalidade, da consangüinidade e da familiarização, permanece intimamente ligado à agência feminina. Inúmeros Kakataibo tendem a falar hoje de maternidade em termos de sofrimento. As mulheres sofrem porque suas crianças pequenas as impedem de viajar, de trabalhar, de estudar, amarrando-as à casa e à comunidade; enquanto “ser moderno” está associado a poder ir à cidade, observar os outros e aprender coisas novas. Apesar de os Kakataibo reconhecerem a complementaridade dos papéis que mulheres e homens desempenham na concepção das crianças e que ambos os pais devem respeitar uma série de proibições após o parto, são as mulheres que possuem plenamente o poder de controlar o nascimento.

Em oposição aos concursos indígenas da América do Norte, a vencedora Kakataibo não se torna embaixatriz de seu grupo, nem endossa funções de representação. Em contrapartida, ela obtém uma bolsa de estudos que pode lhe permitir se instalar na cidade para continuar sua escolaridade e tornar-se, no melhor dos casos, uma profissional. “Profissional” é uma palavra mágica pronunciada espontaneamente pelos Kakataibo e pelos Shipibo quando evocam o futuro de seus filhos. Trata-se de uma figura emblemática do que poderia ser visto como uma nova forma de subjetividade à qual aspiram os adolescentes e seus pais. Do ponto de vista dos Kakataibo, a escola constitui um lugar que deveria abrir para seus filhos a porta do sonhado universo dos profissionais assalariados, ideal ligado à abundância e ao prestígio. O acesso a esse estatuto se conquista pela incorporação, ao longo dos anos, dos saberes ensinados pelos professores estrangeiros. A migração urbana ligada à escolaridade, mesmo temporária e mesmo fracassada, constitui uma etapa extremamente importante na vida dos adolescentes ameríndios, na qual eles se fundam posteriormente para construir sua própria autobiografia.

Os concursos de beleza são como os circos com animais, geralmente desagradam, mas ao mesmo tempo divertem a multidão. Em 2014, a Assembléia Nacional da França proibiu a organização de concursos de mini-miss para lutar contra a erotização e a hipersexualização das meninas. Essa proibição conforma-se a um determinado contexto ético-cultural e a concepções do corpo, da sexualidade e da criança que ele próprio faz emergir. Na região da selva peruana onde trabalho, a sedução se aprende na escola, através do concurso de Miss ou do catálogo de cosméticos da Avon, introduzido recentemente na comunidade nativa pelos professores mestiços. Seduzir, usar mini-saias, maquiagem espalhafatosa e saturar o Facebook com selfies erotizados não é sinônimo de sexismo ou de objetificação das mulheres, é feminismo! Um feminismo decididamente pró-sexo, um pouco do tipo Marcha das Vadias [1], sobre o qual um post no Facebook de uma jovem shipibo de 16 anos, em mini-short e decote profundo revela o essencial: “se você não me curte, não é problema meu, é teu!”. Quer os antropólogos curtam ou não, muitos grupos indígenas se apropriaram hoje dos concursos de beleza com muito entusiasmo. Esses espetáculos exuberantes divertem tanto jovens quanto velhos tornando-se espaços de sedução cujo efeito é atrair homens estrangeiros nas aldeias. Mas para além desse aspecto frívolo, o concurso de beleza deu uma certa visibilidade às jovens mulheres indígenas, permitindo-lhes tomar a palavra em público (o que até recentemente era exclusividade dos homens) e em alguns casos prosseguir sua escolaridade na cidade.

[1]  SlutWalk, no texto original.
Foto: Magda Dziubinska
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Edição 3