entrevista da vez

Antônia Melo, liderança do Movimento Xingu Vivo para Sempre

Antônia Melo da Silva é coordenadora geral do Movimento Xingu Vivo Para Sempre, que luta contra a hidrelétrica de Belo Monte. Chegou à região do Médio Xingu em meados da década de 50. Cresceu na cidade de Altamira, Pará, e acompanhou um dos momentos mais emblemáticos vividos pela Amazônia durante o período da ditadura militar brasileira: a abertura da BR-230, a Transamazônica. Hoje, à frente do Movimento Xingu Vivo Para Sempre, Antônia Melo, Melo como é chamada por lá, se vê diante de um dos momentos mais sensíveis de sua história de luta: acaba de ser expulsa da casa em que viveu por mais de 30 anos. Grande parte do registro que se segue foi feito nos dias que antecederam a sua saída.

A entrevista foi realizada, em Setembro de 2015, em Altamira (PA) por Sabrina Nascimento.

Melo, conta como você chegou aqui.

Na década de 50, meus pais, devido à seca no Ceará migraram pro Piauí. Moramos alguns anos, só lembro que eu nasci lá. Em 1953, ele recebeu o convite de um tio meu que já estava morando aqui no Xingu, em Altamira, dizendo que aqui tinha muita terra. Então viemos. Lembro que na viagem meu pai me colocou pela janela do trem. Aqui os vizinhos se juntaram e tiraram um lote pra nós. Era aqui em Altamira, perto da Bethânia. O sonho do meu pai era ter fazenda e criar muito gado e lá não dava, então fomos embora pra Conceição do Araguaia, às margens do rio. E lá ficamos morando um tempo, próximo das aldeias indígenas. Mas minha mãe chorava todo dia pra vir embora pra cá. Meu pai não conseguiu nada do que ele sonhava com as fazendas de gado, então voltamos para Altamira. Ele começou a amansar cavalos brabos e um dia foi derrubado, amputado e ficou deficiente. Os vizinhos se juntaram, fizeram a casa, fizeram a roça. E depois ele conseguiu uma prótese, fez um engenho, plantou cana, fez muita rapadura, comprou gado, fez roças de feijão, arroz, e deixou grande parte da floresta do lote em pé. Minha mãe criava muita galinha, pato. Tínhamos muito café, muito cacau. Aí a vida foi melhorando. Em 1959, fiquei internada numa escola religiosa, das freiras. Depois fui pra roça ser professora durante uns 3, 4 anos...

Em 1970, casei e vim morar aqui nesta rua. Antes da Transamazônica. Foi bem no início da década. Antes morava mais em cima, onde nasceram meus 4 filhos. Fiz o magistério e mudei pra cá. Era só uma rua cheia de mato, alagava tudo. Três anos depois, construímos essa casa de alvenaria. Fui professora durante 2 anos e já estava muito envolvida na militância, fomos nos organizando, cobrando das autoridades a melhoria das condições aqui na rua, como água e energia.

Fale um pouco do começo da organização desses movimentos aqui na região.

Então, em 1989, éramos das Comunidades Eclesiais de Base - a igreja foi uma grande força nessa luta dos povos indígenas de 1989 contra as barragens no rio Xingu. Ai, eu já participava de todos os movimentos, das reuniões, como da grande reunião no Centro Esportivo de Altamira, onde a índia Tuíra passou o facão na cara do Muniz Lopes, presidente da Eletronorte na época. Em 1990, participei do Movimento Pela Sobrevivência na Transamazônica. Nessa época, os agricultores, com a abertura da estrada, foram se organizando nas Comunidades Eclesiais de Base. Nosso slogan era assim: “Se abrir a Transamazônica foi um erro, abandoná-la é um erro bem maior”. Na década de 1990, foram chamados todos os setores do governo de Brasília para vir aqui. Fez-se uma grande articulação nacional com o poder público estadual e federal para vir aqui conversar com os Movimentos sobre as políticas públicas. Tudo foi gestado nessa época:  o hospital regional , a universidade, a melhoria nas estradas, o crédito para os agricultores, tudo foi resultado da luta iniciada nesse tempo. Criamos uma entidade jurídica pra esse grande movimento aglutinador de forças que foi chamado Fundação Viver, Produzir, Preservar (FVPP), que ainda hoje existe.

Essa região também tem um grande índice de assassinatos de lideranças.

No dia 25 de agosto de 2001, Ademir Federicci, o Dema, foi assassinado. Ele havia denunciado a retirada ilegal de madeira lá em Medicilândia, numa área indígena, e havia denunciado o cemitério de carros em Medicilândia. E também, nós do Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e do Xingu (MDTX), apoiamos a Polícia Federal, as prisões e as investigações dos envolvidos no “caso SUDAM”. Então a gente acredita que ele foi assassinado por conta desse fato. Ele já era ameaçado de morte por esse grupo da região, chamado o “consórcio da morte”. Mataram o Brasília, o Dema, e a irmã Dorothy.

Tu sofrestes ameaças de morte também?

Sofri  logo depois da morte do Dema. Eu era uma pessoa bastante marcada.  Sempre estive à frente, e todo mundo sabe disso, da luta contra os assassinatos de mulheres. Eu era conselheira municipal de direitos e depois fui conselheira tutelar. Nunca recebi ameaça direta, eram só conversas que chegavam por terceiros. Em 2000, começamos a trabalhar com as comunidades, daqui da Terra do Meio, Xingu, Iriri, Riozinho do Anfrísio (PA), para reivindicar a criação das reservas dessas áreas. Fiquei à frente desse trabalho. O processo no Xingu era muito violento, a própria polícia daqui era chamada pelos grileiros, queimavam as casas dos moradores, enfim, fizeram todo tipo de perversidade pra expulsar os moradores para se apossassem de toda aquela região... então iniciamos um processo pra dar visibilidade às violências que eles estavam sofrendo no Xingu. Eram os grileiros, os fazendeiros, os madeireiros que desciam de Goiás, do Mato Grosso, pra tentar expulsar moradores e invadir tudo.

Aí, um pistoleiro veio aqui na minha porta. Sorte que essas lideranças da associação do Riozinho do Anfrísio (PA) estavam aqui, e conheciam o cara, o pistoleiro. Eu estava no quarto, quando ele perguntou: “a dona Antônia está?”, e aí eles responderam: “não, ela não está”. Eu quase que respondo, né. Mas fiquei lá na minha, até que ele foi embora. Depois eles  me disseram: “comadre, esse era um pistoleiro”. E, só ano passado, eu soube que esse pistoleiro chamado Paraná rodou muito aqui para me matar. Então, saí da linha de frente, há muitos anos não saio à noite, nem com meus filhos, comecei a me proteger. E até hoje é assim.

E a história de Belo Monte, como ficou depois de 1989?

Nós estávamos sempre de olho na história de Belo Monte, de Kararaô. Depois de 1989, o projeto ficou meio sumido da pauta, mas a gente tinha notícias de que eles estavam trabalhando numa nova engenharia para barrar o Xingu. No final de 1999, 2000, o governo Fernando Henrique Cardoso anunciou que ia construir as barragens no Xingu com o nome de Belo Monte, propagandeando uma nova engenharia que não alagaria as terras indígenas como Kararaô, que, supostamente, teria impactos bem menores, dizendo que criariam 70 mil empregos para a região. As mesmas propagandas mentirosas de sempre. Que história era essa? O governo agora anunciava que ia fazer barragem e sequer tinha chamado a sociedade daqui, nem os indígenas, pra falar do que estava acontecendo, e já estava com o projeto em pauta, já estava chamando as universidades para fazer o EIA-RIMA. Então, nos reunimos em novembro de 2000, e criamos o Movimento Pelo Desenvolvimento da Transamazônica, já trazendo o Xingu junto. Também foi a criada uma comissão dentro do movimento para dar visibilidade ao projeto. Eu era a única mulher da comissão. Promovemos grandes debates e um grande seminário em maio de 2001. O Ministério Público, então, pegou nossas denúncias, investigou, e disse que o rio Xingu era um rio nacional e era o Ibama que deveria dar as licenças, e não a Secretaria de Meio-ambiente do estado do Pará. Todo o processo ficou embargado por ordem judicial.

E como surge o Movimento Xingu Vivo Para Sempre em meio a esses debates de resistência contra Belo Monte?

Em 2003, quando Lula assumiu a presidência, pensávamos que mesmo que esse projeto fosse uma pauta do governo, este teria algum respeito com as populações e com as leis. Aos poucos, fomos vendo que não era verdade. Quando o Lula ganhou, a primeira coisa que a Dilma, então ministra de Minas e Energia, fez foi pegar Belo Monte para negociar. Em maio de 2008, os índios Kayapó nos chamaram para fazer um grande encontro, como em 1989. Foram mais de 3 mil pessoas aqui, mais de mil indígenas, no Encontro Xingu Vivo Para Sempre. O governo não veio! Esse governo é um governo que não tem diálogo, ele tem é imposição, ele impõe! Determina ! É ditatorial ! O diálogo nunca existiu. O governo não veio e mandou um cara bastante arrogante também da Eletrobrás. Foi aquele episódio do golpe no braço dele dado pelos indígenas. A revolta dos indígenas era contra a falta de respeito. Em 2008, esse movimento (MDTX) já estava balançando porque a base do movimento regional era do Partido dos Trabalhadores. Desse grande movimento de defesa dos rios, dos povos e contra as barragens no rio Xingu, que surgiu no encontro de maio, nasceu o Movimento Xingu Vivo Para Sempre, fundado no dia 23 de maio de 2008, quando os indígenas mesmo gritaram que, a partir daquela data, ele passaria a se chamar assim. Aí, o pessoal tratou de acabar com o MDTX porque estava insuportável conviver lá na sede, já que nós éramos totalmente contra o governo, falávamos abertamente contra Belo Monte. Tivemos que sair de lá. Aí, o bispo cedeu pra nós, do Xingu Vivo, esse espaço da Prelazia. Em 2010, a gente viu que o Lula ia mesmo passar com o trator por cima da gente.

Quando foi que sentistes que não poderias contar mais com o PT e que o governo finalmente deixou claro que Belo Monte já era uma decisão tomada?

Foi numa reunião em Brasília, quando o Dom Erwin pediu pra discutir com ele, já sabendo que eles avançavam com Belo Monte sem respeito aos povos indígenas. Foram dois procuradores da República, representantes dos ribeirinhos, dos indígenas daqui, dos agricultores, Dom Erwin e eu, representando os movimento sociais. Foi quando o Lula, depois de ouvir o setor elétrico brasileiro, que estava na mesa também, e ouvir as “maravilhas” que eles disseram que iam fazer aqui (casa pra todo mundo, tirar o povo da miséria, os povos miseráveis que moravam nas palafitas etc). Quando a minha fala com o Lula começou, primeiro eu agradeci o bispo e eu disse: “Senhor Presidente, primeiro eu queria dizer que o projeto habitacional, a moradia está garantida na Constituição, é um DIREITO do cidadão e um DEVER do Estado...” Ele não deixou nem que eu terminasse de dizer a palavra “Estado”, e me repreendeu com muita raiva e disse: “Olhe, senhora! Não me venha com ideologias, não!” E com muita raiva mesmo. Aí eu quis reagir, mas pensei que era melhor não, em respeito ao bispo. Aí o Dr. Felício (do Ministério Público Federal) disse :“Não, não, Sr. Presidente, ela está dizendo que a questão da moradia é uma questão que está garantida na lei”. Eu percebi naquela hora que ele era muito ditador, que ele não aceitava críticas, ele deveria pelo menos ter respeitado a minha fala para que depois falar o que ele quisesse. Se ele quisesse me questionar, ele tinha que ter me escutado. Porque realmente todos que estavam na mesa eram homens, só tinha eu de mulher. O setor elétrico estava todo lá, toda a macharada' arrogante, prepotente.

Fostes a única que ele interrompeu?

Foi. Ele chamou a minha fala de “fala de ideologia”. Se não fosse o Dom Erwin, eu teria me levantado e dito um palavrão, chamado ele de mal educado, de arrogante, de ditador e teria dito: “agora isso que eu estou falando em defesa dos direitos é ideologia, mas vocês do PT me ensinaram, há muitos anos, que a gente tem que lutar sim! Que política pública, que direito, que isso está na Constituição, e que a gente não tem que negociar, a gente exige o que é um direito nosso. E agora você vai querer trocar o direito de moradia da população por Belo Monte?”. Queria dizer um monte de coisa para ele. Aí, ele disse para o D. Erwin: “É, Dom Erwin, quero ver todo esse projeto de Belo Monte, porque se não for viável, o governo não vai enfiar goela abaixo”. Aí, terminou a reunião, fui arrumar os papéis que a gente tinha levado, um dossiê enorme que tínhamos preparado, eu acho que ele fez foi queimar aquilo tudo. Aí depois, na hora da foto, eu disse: “eu não vou tirar foto nenhuma com esse desgraçado”.

Dom Erwin me disse que, naquele momento, era como se tu tivesses tido uma intuição em relação à Belo Monte e ao presidente Lula.

É, a própria postura do presidente de não querer me ouvir, de me repreender, isso me machucou bastante. E eu não tive mais como acreditar, como dar nenhuma credibilidade àquele homem, àquela autoridade. Senti como se fosse mesmo uma agressão física. Na verdade, foi uma agressão física e psicológica muito grave para mim da qual nunca mais esqueci. Uma agressão de um poder machista, autoritário e opressor! E eu tiro foto com uma pessoa querida porque eu vou guardar, porque é uma lembrança que faz parte da minha vida, com uma pessoa que eu quero bem, que gosto e em quem confio e que eu posso colocar na minha história. Então, eu não tinha porque tirar foto com ele pois, a partir daquele momento, ele já não fazia mais parte da minha história de vida, dos meus conceitos… eu não ia, jamais, me sentir bem quando eu olhasse para aquela foto já que eu ia estar lembrando do episódio de machismo que ele fez comigo. Para mim ficou muito claro ali que tudo o que nós falamos ele ia jogar no lixo, porque ele não tinha considerado nenhuma vírgula, porque se ele fosse considerar, por mais que ele não tivesse gostado, ele iria escutar primeiro e me dar uma resposta educada. Mas entendi que ele ia empurrar goela abaixo sim, e que eles iriam fazer Belo Monte como estão fazendo. Tudo o que Lula e Dilma falaram não passou de enganação e falta de respeito. Isso aí, está claro. Eles não querem ser interrompidos, não querem ouvir a verdade, não querem ouvir nada da realidade desse projeto.

Foto: Sabrina Nascimento

Fostes filiada ao PT...

Fui, durante muitos anos. Nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBS) nos orientavam de que os militantes tinham que estar filados a um partido, que era o caminho para se conseguir a justiça. Aí me filiei ao PT. Fui candidata 3 vezes nesse partido, perdi um pouco do que eu quase não tinha, queimei meus braços fazendo campanha pra esse partido covarde, traidor… Saí em 2009, eu acho.

E quanto à divisão que ocorreu nos movimentos sociais na luta contra Belo Monte, entre os que apoiavam Belo Monte e o governo, e os que os contestavam?

Ficou insuportável, tanto é que, quando o Lula veio, fomos entrar no estádio onde ele estava. Tinha um cordão enorme de polícia e os próprios companheiros que antes levantavam a bandeira contra Belo Monte estavam com um crachá do governo proibindo nossa entrada. Alguns conseguiram entrar. O Lula foi muito ruim, chamou a juventude de mal-informada, dizendo que ele, quando era jovem, também tinha lutado contra a barragem de Itaipu e que hoje ele via que era uma grande obra para o país, um desenvolvimento espetacular. E que essa juventude que estava lá naquele dia, levantando bandeira, dizendo não a Belo Monte, era desinformada, precisava se informar. Disse um monte de coisa assim. E a Ana Júlia, então governadora, naquele discurso da direita – porque eles são da direita   -  disse que só os que não querem o progresso são contra Belo Monte.

E sobre a forte organização das mulheres aqui da região nas lutas sociais. A partir de que momento essa organização passa a se destacar e ganhar importância?

Na década de 1970-80, as mulheres já participavam de todas as lutas e das decisões. Mas era muito violenta a situação delas aqui, com muitos assassinatos, principalmente aqui em Altamira. Aí nós juntamos um grupo das mulheres das Comunidades Eclesiais de Base e discutimos a situação, e decidimos fundar um Movimento de Mulheres, para fortalecer a luta contra a violência e a impunidade e por justiça. E aí, em 8 de março de 1991, fundamos esse movimento junto com as mulheres de Brasil Novo (Transamazônica - PA), chamado Movimento de Mulheres Trabalhadoras de Altamira Campo e Cidade. Pela primeira vez, saímos às ruas pra militar contra a violência, a impunidade e pedindo justiça. Era um total de 80 pessoas, a maioria mulheres e alguns homens.

Como foi essa organização e o que era reivindicado?

Havia também o sumiço dos meninos de Altamira, que apareciam depois assassinados, conhecido como o “caso dos emasculados”. Nessa mesma época foi aprovado o Estatuto da Criança e do Adolescente. Então, lutamos, ao mesmo tempo, para fundar um movimento de fortalecimento da luta contra a violência e pelos direitos das mulheres; e para fortalecer a luta contra os assassinatos das crianças. E criamos o primeiro Conselho Municipal dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes e lutamos logo depois pela criação do Conselho Tutelar. Participei de todos esses conselhos, além de ter sido a primeira coordenadora do Movimento de Mulheres Trabalhadoras de Altamira Campo e Cidade. Eu não vim com experiência de nada, mas tive que enfrentar com coragem, sendo ajudada pelas outras, para que a gente tivesse uma direção de fortalecimento de luta. Ficamos nessas linhas de frente com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, com o Conselho Tutelar e o Movimento de Mulheres, junto ainda ao grande Movimento Regional pela Sobrevivência na Transamazônica. Com isso, conseguimos pôr na cadeia os assassinos das mulheres que estavam impunes, aqueles que não fugiram. Nós brigamos muito, fomos pra rua, e cobramos justiça das autoridades.

Quais eram as maiores queixas das mulheres?

A violência doméstica era a mais forte, era ex-marido, era namorado, ex-namorado que matava… Os índices eram altos demais. Principalmente em Altamira, porque não existia nenhuma penalidade. A polícia naqueles tempos, e hoje ainda, era uma polícia de formação altamente arcaica, machista, do tipo: “mulher que trai o homem, a recompensa dela é a morte, é ser assassinada, sofrer todo tipo de violência para não manchar a honra dos homens”. A polícia, nessa época, era mesmo educada nesse sentido e os juízes também. Por isso, matar mulher por traição era comum, ou ao menos se o homem desconfiasse que fora traído, já era motivo para assassinar. Então, conseguimos fazer essas denúncias também fora daqui, e até internacionalmente.

Como te sentes enquanto mulher, diante de tudo isso ? Hoje no Xingu Vivo a presença feminina é uma das mais importantes e acredito que sempre foi.

Como eu disse, dentro das ações e das lutas aqui da região da Transamazônica e Xingu, desde a década de 1960-70, as mulheres já tinham um papel fundamental. Época em que elas se reuniam no clube de mães para um trabalho mais assistencial das pessoas doentes, mais pobres, e tinha também a medicina caseira com a qual elas trabalhavam bastante. Em 1980, já com a Transamazônica, as mulheres deram continuidade a essa organização, a esse “se juntar”, nas comunidades, tanto na cidade, como na área rural, para discutir e se aliar à luta dos homens nos sindicatos e pelas políticas públicas, principalmente saúde e educação e melhoria das estradas e crédito. E aí, na época da formação do Movimento de Sobrevivência na Transamazônica, as mulheres rurais já conseguiram espaço dentro dos sindicatos, que antes eram só dos maridos, como organização, como direito de se organizar enquanto mulher trabalhadora rural. E começaram a ajudar nas proposições da luta por políticas públicas. Na luta contra Belo Monte, as mulheres foram muitas e tiveram um papel muito importante na parte da mobilização contra as barragens no Xingu e em apoio aos povos indígenas. Afirmo que sempre quem ficou mais à frente dessa luta contra Belo Monte foi o movimento de mulheres. Fizemos grande encontros, debates, enfim, muita coisa aqui, as barragens sempre foram um assunto da nossa pauta, uma preocupação nossa, porque tínhamos certeza que íamos perder muito e ser extremamente afetadas e perder nosso chão... é como eu digo, eu tinha planos de um futuro, hoje eu não tenho mais, está tudo muito obscuro sobre o que pode acontecer, porque o que está acontecendo com certeza é um terror, é um impacto de terror, um terrorismo contra a vida da gente...E Belo Monte é uma violência tremenda, a gente está perdendo o chão que a gente pisava, a casa que a gente vivia, a gente está perdendo parte da vida. Belo Monte está tirando um pedaço de mim, eu não sou mais a mesma, tudo está muito diferente. Então é uma grande violência, uma violência silenciosa, uma violência psicológica, física, econômica, social e ambiental. Eu não tenho nem palavras pra dizer o que eu sinto agora com Belo Monte...

Quanto ao tom que as mulheres dão à luta ?

A mulher tem uma percepção bem diferente da do homem. A mulher se apega ao cuidado com as plantas, com o redor de sua casa, da sua moradia... o cuidado com as árvores, com o meio-ambiente, com a chuva, quando vai chover as plantas que precisam de água, enfim, com os filhos que nascem ali, que constroem juntos essa história, do crescer das plantas, do crescer dos animais, do cultivar o roçado, do cultivar as frutas. Tudo isso faz parte de uma “pertença” (apego) da vida da mulher. Enquanto os homens não, eles tem uma outra percepção, eles não têm, na sua grande maioria, essa “pertença” que sai de dentro de si, é mais um projeto de vida. A mulher tem essa coisa da pertença muito ligada ao nascimento, ao crescimento e ao cuidado com a vida. Mas nem todas as mulheres, né, porque a Dilma é a mulher que está mandando destruir tudo. No caso do poder nas mãos de uma mulher como a Dilma, está claro pra nós que ela tem uma visão masculinizada, machista, tanto em relação ao poder econômico, o capital, quanto ao apego, a pertença de estar no poder, de estar mandando, determinando.

Melo, e sobre a tua expulsão provocada por Belo Monte, tu queres comentar alguma coisa?

Esse episódio de ter que sair da minha casa onde eu vivi mais de 30 anos, onde cresceram  os meus filhos... eu nunca tive a intenção de sair de casa, e ser expulsa compulsoriamente por Belo Monte, pela Norte Energia, isso é muito cruel. Estou mesmo sendo arrancada na marra, à força, sem dó e sem pena. Porque é assim, embora a empresa tenha me indenizado, dinheiro nenhum do mundo paga isso, porque minha casa não estava à venda. E de uma coisa eu sei: expulsaram a gente daqui pra fazer uma limpeza social, como se nós fossemos lixo, meros objetos descartáveis. Então, o sentimento de deixar a minha casa, toda essa beleza verde, é uma coisa muito triste, muito ruim... Mas tenho uma certeza: a memória de tudo isso, da minha vida toda, de mais de 30 anos morando aqui nesse local, construindo tudo isso que construí com meus filhos e filhas, com minha vizinhança, eles jamais vão conseguir destruir. Essa memória vai comigo, vai com meus filhos, vai com minha vizinhança, eles nunca vão conseguir destruir. E tudo isso que está acontecendo vai ser sempre falado, denunciado em todos os lugares em que eu estiver!

‍Foto: Sabrina Nascimento

Muito obrigada por esse momento incrível. Deixo o final da entrevista para uma última fala tua...

Eu quero fazer um apelo às pessoas, um convite às pessoas a refletirem, principalmente as mulheres, a refletirem sobre seus modos de vida. O que é que está acontecendo? O que é que está por trás desses projetos que destroem a vida? E desses projetos como os do PAC que agora estão nas mãos de uma mulher: é esse o papel de uma mulher que assume o poder? O que você sente vendo uma mulher como a Dilma fazendo esses projetos de destruição da vida? Então, queria que todos refletissem qual é o modelo de poder e como nós, mulheres, poderemos construir um poder de vida, um poder de acolhida, um poder de respeito aos direitos humanos, um poder, acima de tudo, que gere vida e não que gere morte. Que legado nós estamos deixando? São coisas muito graves que esses projetos desenvolvimentistas estão trazendo de destruição da vida humana, da destruição ambiental, porque o meio-ambiente, as florestas, os rios, as águas são nossa vida. E se isso está sendo destruído, nossa vida também está sendo destruída, assim dizia a irmã Dorothy e é verdade: o fim da floresta é o fim da nossa vida, o fim dos nossos rios, o barramento dos nossos rios é o fim também das nossas vidas. Então, faço um apelo para que nós nos juntemos nessa ótica da verdade, dos direitos e do respeito, não de apoiar partido A, B ou C. E também para todos, principalmente as universidades que ainda estão muito dentro de seus muros, que saiam, que contribuam para sociedade, com o fortalecimento das organizações da sociedade em geral, para que nós paremos esses projetos de morte a exemplo de Belo Monte. E dizer que a natureza nos dá tantas formas pra viver e viver com qualidade sem destruir e que nós não aproveitamos. Nós nem olhamos pra isso! E a sociedade como um todo, nós temos que mudar de vida, questionar o consumo, e não temos mais como continuar aceitando esses modelos, esses projetos de desenvolvimento e continuar a destruir toda a vida. Então é hora de mudar, não tem mais como continuarmos, temos que dar um basta a tudo isso que faz sofrer, que mata, que destrói a vida. Quero dizer que nós nem precisamos construir nada de novo, os indígenas já têm um projeto, os ribeirinhos já têm um projeto, é só parar, olhar, refletir e agir.

[1] Nos anos 2000 a 2002, uma série de acusações de desvio de recursos e corrupção envolvendo dirigentes da SUDAM e o então senador Jader Barbalho (PMDB-PA) levaram ao fechamento da SUDAM. Barbalho renunciou ao cargo em 2000, mas foi novamente eleito deputado em 2002, 2006 e senador em 2010.  
[2] Belo Monte é um remodelamento do projeto de Kararaô, concebido nos anos 1970 sob a ditadura militar, que previa a construção de seis grandes usinas ao longo do rio Xingu.
[3] Estudo de Impacto Ambiental - Relatório de Impacto Ambiental.
[4] Em 20 de maio de 2008, o engenheiro da Eletronorte foi agredido por indígenas kayapó durante reunião do Encontro Xingu Vivo para Sempre.
[5] Dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu e presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI).
[6] Entre 1989 e 1993, inúmeros meninos foram assassinados e emasculados  em Altamira.
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