entrevista da vez

Ángela Vela e Marleen Villanueva, lideranças indígenas norte-americanas

entrevista Ángela Vela e Marleen Villanueva

“Eu olho para tudo aquilo que nós temos que engolir, mas então me lembro de tudo que meus ancestrais tiveram que enfrentar: ‘Certo, esta é a minha batalha e eu não vou recuar’”

Ángela Vela e Marleen Villanueva são codiretoras, respectivamente, do Native American and Indigenous Collective (NAIC) e da Native American and Indigenous Peoples Association (NAIPA), organizações conformadas por estudantes indígenas da Universidade do Texas em Austin, Estados Unidos – a última, por alunos da pós-graduação. Ángela, 23, estuda Letras (Inglês) e Marleen, 27, está prestes a concluir o mestrado, em Estudos Culturais em Educação. Nesta conversa, ocorrida no campus, em 16 de novembro, as duas refletem sobre o papel das entidades estudantis em que atuam, os problemas estruturais que seguem impactando a presença indígena na universidade e as perspectivas de organização da juventudade. Sua narrativas – habitadas por ancestrais, lideranças indígenas contemporâneas e personagens não humanas – são atravessadas pela fronteira, por episódios traumáticos, por esforços para a construção de outros mundos e por potentes marcos políticos, como o movimento de defesa territorial recentemente desatado em Standing Rock, na Dakota do Norte. Com essas falas, Ángela e Marleen abrem uma janela para seus processos formativos como mulheres indígenas, estudantes e militantes.

Daniela Alarcon – Gostaria de ouvir um pouco sobre as trajetórias de vocês. Como foi crescer sendo indígena? Quero dizer, vocês tinham percepção de que eram indígenas desde pequenas ou isso veio com o tempo? Enfim, poderíamos começar conversando sobre suas origens, suas famílias, aquilo que vocês se sentirem à vontade para compartilhar.

Ángela Vela – Desde que eu era pequena, eu tinha bastante clareza de ser indígena. Porque, conforme eu ia crescendo, meu pai ia enfatizando a nossa identidade. Pode parecer estranho, mas, toda vez que nós víamos algo feito de penas, ele dizia: “Isso é parte do seu patrimônio”. Depois, havia o modo como a nossa casa era – e ainda é – configurada, em torno de um altar, com fotografias dos nossos parentes vivos e mortos. E nós temos um crânio de búfalo em casa. Não sei... Há certos aspectos do meu pai sobre os quais eu não sei muito. Mas o modo como nossa casa era configurada, com os altares e tudo, me fazia muito consciente desse pertencimento. Essa foi uma das formas pelas quais eu aprendi sobre a minha identidade. E eu era muito ligada ao lado paterno da família, à minha avó, que vem de uma comunidade conhecida como Las Minas, no sul do Texas. Essa comunidade não é reconhecida – é uma história muito complicada –, mas é a esse lugar que meu pai atribui boa parte de suas origens.

As coisas eram difíceis, também, porque a identidade hispânica é um componente muito forte da região onde eu cresci, por razões históricas. Em parte, era algo imposto, mas havia ocasiões em que a minha família se identificava voluntariamente como hispânica, por razões que... Então, eu sinto que sempre tive clareza sobre a minha identidade, mas, ao mesmo tempo, estava em conflito, porque não conhecia mais ninguém que se identificasse como indígena. Eu não tinha espaço para ser indígena para além da minha família, especialmente do meu pai e da minha avó, que iam me criando a seu modo e me ensinando como a vida costumava ser em Las Minas.

Eu sinto que agora me reconectei – não, não quero dizer que me reconectei, porque eu sempre estive conectada. O que acontece é que agora eu estou enfatizando essa parte de mim, o máximo possível, no meu modo de viver. Tenho feito muitas perguntas à minha avó e estou descobrindo muitas coisas que não sabia antes. Isso me fez perceber claramente que nossos modos de transmitir conhecimento não são ocidentais: os ensinamentos estavam sendo passados para mim e eu simplesmente não me dava conta de que isso estava acontecendo, porque meu pai e minha avó não chegavam, me sentavam em uma cadeira e diziam: “Agora, você vai aprender a ser indígena”. Era mais uma... Não sei descrever, só sei que eles me transmitiam o que precisava ser transmitido. Era assim que eles viviam e eles iam passando para mim os valores indígenas do equilíbrio e da reciprocidade. Eu sinto que minha avó e meu pai me influenciaram muito.

Marleen Villanueva – A colonização afetou minha família em cheio. Quer dizer, isso vale para todos os indígenas... No nosso caso, a coisa chegou ao ponto de perdermos nossas terras, que ficam nas montanhas, no México, no lugar hoje conhecido como San Luis Potosí. Foi ali que a minha mãe nasceu, em El Paraiso. Quando ela era criança, não havia eletricidade, não havia todas essas coisas, sabe... Então, começaram a aparecer pessoas de fora, batendo na porta e dizendo: “Sabe, vocês são pobres, vocês não têm educação, não têm eletricidade, vocês são pobres...”. Pobres em todos os aspectos da acepção de pobreza desse projeto de modernidade capitalista que colocaram em marcha. Então, minha avó começou a acreditar nisso, sabe? Não porque ela quisesse: foi algo imposto. Porque o fato de alguém ir até a sua casa, bater na sua porta e dizer que você não é nada causa danos psicológicos. Então, essas pessoas vinham com alternativas: “O que você pode fazer para melhorar sua vida é ir para a cidade. O que os seus filhos precisam é de educação e você não está dando isso para eles”. Educação queria dizer a, b, c, d, sentar-se em uma sala de aula, em uma carteira, ler, escrever, tudo isso que eles dizem que é ou deveria ser educação. Através desse processo, eles vão tirando nossa identidade e nos socializando para ser um tipo específico de pessoa. Essa gente de fora aparecia o tempo todo. Eles até criaram uma escola de educação básica nas montanhas. Aí, eles diziam: “Agora, vocês têm que ir para a cidade, se quiserem continuar a estudar. Se não forem, vão continuar pobres”.

Minha avó teve seis filhos. Meus tios e tias mais velhos não receberam educação formal. Eles logo começaram a procurar meios de trazer dinheiro para casa: viajavam para a cidade, para trabalhar, ou iam para a roça e vendiam a produção na feira. Quando começou a entrar algum dinheiro em casa, minha avó pensou: “Certo, talvez os mais novos possam ter educação”. Na época de os mais novos irem para a escola, eles se mudaram para a cidade. Naquele tempo, eles viviam em uma casa intergeracional: as crianças, minha avó, a sogra dela, meu avô, três ou quatro gerações na mesma casa. Então, minha avó disse: “Eu vou fazer isso pelas crianças”. A gente não pode culpá-la, certo? Havia um projeto para “desenvolver” as pessoas e, se você não o seguisse, continuava “pobre”. Minha avó começou a juntar dinheiro, encontrou uma casa e uma pessoa que a deixou ficar nessa casa até ela conseguir dinheiro para pagar – ela trabalhava para essa pessoa, em um tipo de trabalho análogo à escravidão.

Só que meu avô não queria ir para a cidade. E a mãe dele também não. Meu avô dizia: “Não, aqui é a nossa casa”. De fato, aquelas terras, especificamente, tinham sido entregues a famílias indígenas durante a Revolução Mexicana, com [Emiliano] Zapata e tudo. Então, eles não queriam partir. Mas minha avó disse: “Bom, eu estou indo”. Ela pegou as crianças e foi. Minha bisavó ficou: “Eu não vou, vocês não vão me tirar da terra, não vão me tirar de casa”. E então meu avô teve que ficar indo e vindo, entre a mãe e a esposa. Na cidade, a minha mãe começou a trabalhar em uma papelaria e a ajudar em casa – na verdade, foi ela que garantiu educação formal para a minha tia. Foi aí que a minha mãe começou a formar seus valores sobre a importância da educação, valores que ela transmitiria para mim. Passado um tempo, minha bisavó ficou doente. Então, eles a forçaram a se mudar para a cidade, eles a tiraram de casa. “Não, você não pode mais viver sozinha, você vem com a gente”. Na cidade, a casa já não era mais da minha bisavó, era da minha avó; a dinâmica mudou e a minha bisavó tinha um quartinho para ela. A mudança também serviu para reforçar um tipo de catolicismo muito pesado, que foi imposto sobre eles. Eles falavam para a minha bisavó: “Você não pode continuar fazendo seus rituais, vá para o seu quarto”. Minha bisavó ia para o quarto e fazia as cerimônias ali – seu altar era no quarto, seus rituais eram realizados no quarto. No altar, ela tinha um popóxcomitl, para queimar copal, que ela mesma tinha feito, de argila. Hoje, eu tenho no meu altar um popóxcomitl feito por ela.

Essa história, eu só aprendi depois, quando descobri a verdade. Porque eu cresci pensando, primeiro, que era hispânica. Depois: “Não, eu não sou hispânica, isso é um rótulo imposto de fora; agora, eu sou mexicano-estadunidense”. E depois: “Espera. O quê?! Eu não sou mexicano-estadunidense, eu sou indígena!”. Tentar descobrir quem eu sou tem sido um processo cheio de camadas. Eu gostei quando você falou, Ángela, que não está se reconectando, porque sempre esteve conectada. Isso é muito importante, é exatamente isso. E tem a ver também com o fato de que a própria categoria “indígena” só apareceu quando alguém chegou e nos disse que era isso que nós éramos. Entende? É um rótulo. Minha mãe tem muita dificuldade de lidar com isso. Ela diz: “Nós somos pessoas. Do que você está falando? Nós somos pessoas”. Se você olhar para as línguas indígenas, em toda parte, os etnônimos querem dizer “o povo”, “o povo verdadeiro”... É antes uma identificação com a espécie que com uma raça.

Eu sofri muitos traumas e violências. Em 2009, eu estava na graduação, passando por tanta coisa... Foi então que eu comecei a participar do Movimiento Estudiantil de Chicanos y Chicanas de Aztlán (MEChA), uma organização estudantil muito ativa, bastante radical, que se identificava como chicanx. Um dia, um dos membros do MEChA trouxe uma danzante para o campus, Laura Ríos. Ela começou a tocar o tambor – tã, tã, tã, tã, tã – e eu fiquei profundamente impactada. Era a primeira vez que o Dia dos Povos Indígenas era celebrado na universidade. Em 2009. Até então, isso não existia aqui. Em seguida, Laura convidou as pessoas para irem aos ensaios. Eu fui e encontrei esse grupo de danzantes maravilhosos, do Mexican American Culture Center [centro cultural situado em Austin, dedicado à conservação, produção e circulação de arte mexicana e de outros países latinos]. Só que eu estava tímida, não consegui chegar até eles. Em vez disso, decidi me sentar junto de uma árvore e simplesmente assistir. O tambor e o cheiro do copal me fizeram chorar... Eu ia toda semana, sem falta: sentava na árvore e chorava, chorava, chorava... Foi ali que as portas se abriram – na época, eu ainda era estudante de Medicina.

Foi nesse momento também que eu me aproximei de um curso sobre feminismos chicanos. Tudo aconteceu ao mesmo tempo. Eu li Borderland/La frontera, de Gloria Andalzúa, Cherríe Moraga, This bridge called my back [editada por Cherríe Moraga e Gloria Anzaldúa], Ana Castillo – todas essas feministas chicanas incríveis e fortes. Eu sentia tanta raiva – no bom sentido – e consegui canalizá-la para a militância no MEChA. Depois de um tempo, o MEChA já não era suficiente, então, eu ajudei a fundar La Colectiv@, que acabou sendo a primeira organização na Universidade do Texas (UT) criada por feministas imigrantes de primeira geração. Dali surgiria a Native American Students Assembly (NAISA), a primeira organização de estudantes indígenas do campus. Quer dizer, já existia o Longhorn American Indian Council (LAIC), mas nós não nos sentíamos representados, então, criamos o NAISA. Depois, da fusão do NAISA e do LAIC, surgiria o Native American and Indigenous Collective (NAIC), que existe até hoje. Essa é uma parte da minha trajetória...

Ángela – Enquanto a Marleen falava, eu fiquei pensando: “Eu também passei por isso”. Se possível, gostaria de voltar a alguns pontos, para estabelecer um diálogo. Eu passei por experiências muito similares. Ingressei na UT transferida de outra universidade – meus pais queriam que eu continuasse morando com eles e minha mãe queria que eu estudasse transtornos de comunicação, mas meus professores de inglês achavam que eu escrevia bem e... Isso provavelmente veio da minha avó e do meu pai, mas em certo sentido também da minha mãe. Ela não fala muito sobre sua criação, e ela tem seus motivos – eu amo a minha mãe e não tenho a menor intenção de desrespeitá-la, mas lhe ensinaram que ela foi indígena um dia, mas não é mais. Agora ela vê meu trabalho e me respeita por isso, o que é ótimo. Quando eu entrei na UT, fiquei sabendo do NAIC e que eles estavam organizando o Four Directions [evento anual de recepção organizado pelos coletivos indígenas e aberto ao público em geral], mas eu ainda me sentia... Eu não tenho um documento oficial de pertencimento a um povo indígena, eu venho de uma comunidade que migrou da fronteira do México – a migração é algo natural, algo que os povos indígenas fazem o tempo todo, como minha avó e meu pai sempre dizem. Mas eu não me sentia confortável, eu tinha receio de não ser acolhida, porque sei que eu tenho a pele mais clara. Isso não deveria ser uma questão, porque indígenas de diversos povos têm a pele mais clara, por razões coloniais. Mas eu pensava: “E se eu não for aceita?”. Então, eu me continha e não me envolvia.

Meu pai diz que descendemos dos Mexica, e, por parte da minha avó, dos Comanche. Ao mesmo tempo, ele localiza sua origem na comunidade trabalhadora do sul do Texas, onde meus parentes mantinham um modo de vida indígena. A avó do meu pai tentava lhe ensinar as coisas, mas, naquela época, ser indígena era um constrangimento. Quando eu estava na segunda série, cheguei a me fantasiar de peregrina [em referência aos colonos ingleses que, no século 17, estabeleceram-se no que hoje corresponde à Nova Inglaterra]; em algumas aulas, tínhamos que colorir desenhos de índios. Eu ficava animada, porque, com a minha cabeça de aluna da segunda série, eu pensava: “Estou aprendendo sobre mim no passado e vou começar a aprender no presente”. Então, perguntei à professora: “Quando a gente vai começar a aprender sobre outros povos indígenas e sobre como nós vivemos hoje?”. Ela respondeu: “A gente vai ver isso mais para frente”. Na terceira série, fiz a mesma pergunta – provavelmente, eu era a única que fazia essa pergunta. “Nós fizemos tal atividade ano passado. Podemos continuar aprendendo, por favor?” E eles diziam: “A gente vai ver isso mais para frente”. Na quarta série, eu concluí: “Eles nunca vão me ensinar”. Então, comecei a pesquisar por conta própria. Estava interessada no Día de los Muertos [celebração de origem mesoamericana], no povo Comanche, nas coisas que meu pai contava. Comecei a pesquisar e passava as informações para os professores.

As histórias que meu pai e minha avó me contavam me influenciaram a pedir transferência para a faculdade de Letras. E também havia meus professores, que viam meu potencial. Então, falei para a minha mãe: “Não vou mais estudar transtornos de comunicação, desculpa, vou me transferir para a UT”. Aí veio o NAIC, mas eu não me sentia confortável – nos dois primeiros anos, não procurei o NAIC. Eu pensava: “Eu preciso existir, só isso. Meu percentual de sangue indígena, meu reconhecimento étnico oficial... Não é assim que nós reconhecemos nosso povo”. Meu pai me fala isso o tempo todo. Porque eu me lembro de ter lhe perguntado uma vez: “Por que não estamos com nosso povo? Porque estamos sozinhos?”. E ele disse: “Não é desse jeito que nos reconhecemos uns aos outros. Não saímos atrás uns dos outros: ‘Vou pegar um papel e uma caneta e declarar que você é índio, para todo mundo ver’”. Para ele, isso não fazia sentido. Então, eu comecei um processo de aceitação, de mim mesma e da comunidade.

Marleen falou sobre o tambor e o cheiro de copal: isso me afetou também. Na nossa família, não usávamos tambores, mas meu pai e minha avó usavam muito incenso, e eu me sentia bem. Sinto que as palavras me escapam quanto tento descrever rituais – seja em espanhol ou em inglês, simplesmente não consigo, apesar de estudar Letras e saber descrever as coisas. Quando se trata dos rituais, se eu tento descrever como me sinto ou se alguém me faz uma pergunta, a resposta não sai do jeito que eu queria, e acho que há uma razão para as coisas serem assim. Eu só queria comentar isso, porque a Marleen me fez pensar... Enfim, eu estava tentando me encaixar na UT, tentando frequentar grupos hispânicos ou outros, mas não funcionava – e também há um motivo para isso. A questão dos espaços indígenas na universidade é uma luta, porque ainda somos invisibilizados – especialmente as mulheres indígenas. Nas disciplinas que eu curso, às vezes, sou a única mulher não branca da sala; em todas elas, com certeza, sou a única indígena.

Marleen – Quando a Ángela fala sobre não se sentir confortável por causa das políticas de identidade, eu me identifico muito. No começo, eu pensava: “Certo, agora preciso descobrir a que povo pertenço”. Naquele ponto, eu estava tão colonizada, que não conseguia pensar em identidade fora dessa caixa. Muitos de nós continuamos a sofrer com isso. Em alguns casos, eu entendo a necessidade de saber exatamente… Acho que há beleza e força no modo como esse conhecimento pode te impulsionar, mas ele também pode trazer consigo coisas muito negativas: “Eu sou puro, você não é”. Porque eu ouvi pessoas dizendo: “Eu sou 100% Choctaw” ou “Eu sou 100% isso ou aquilo”. Ótimo, que bom para você! Mas de que forma você diz isso? Insinuando que há algo errado com o outro? Afinal, o que você quer dizer com isso? De que modo acabamos, nós mesmos, perpetuando violências que foram impostas ao nosso povo durante tanto tempo? Isso é horrível, é muita colonização interna.

Acho que, com o passar do tempo e com ritual, consegui me sentir mais tranquila em relação a isso e me mover na direção do que diz María [Rocha, do Indigenous Cultures Institutes,organização criada pelos Miakan-Garza, do Texas]: “Saiba quem você é, porque ninguém saberá quem você é melhor do que você mesma”. Reconhecer que eu não preciso das palavras do branco para me dizerem quem eu sou, mesmo que se trate, por exemplo, de um etnônimo. Todas essas coisas... Sim, elas têm um propósito. Quanto às pessoas que têm o privilégio de saber exatamente quem são e de onde vieram, isso é ótimo. Agora, o que você vai fazer com esse privilégio? Porque se trata de um privilégio, me desculpe. Você vai construir solidariedade entre comunidades que viveram a colonização de maneiras diferentes, muito diferentes, todas igualmente dolorosas? Então, eu acho que é uma luta. Foi interessante escutar você falar, Ángela, sobre chegar e não se sentir confortável. Porque foi por isso que criamos o NAISA. Nós não nos sentíamos parte do LAIC, então, veio o NAISA. Escutar que o NAIC também reproduzia isso é interessante. Me faz pensar nas maneiras como as nossas organizações invisibilizam e reproduzem violências. O que podemos fazer para evitar isso? Que tipo de oficinas podemos fazer? Que tipo de informações podemos colocar nos nossos materiais a esse respeito?

Daniela – Em outubro, aqui na UT, Pamela Palmater [advogada, professora universitária e militante Mi’kimaw, do Canadá] abriu sua palestra dizendo que as mulheres indígenas ainda são muito invisibilizadas, de diversas maneiras. Agora, vocês também mencionaram experiências nessa direção. Ao mesmo tempo, as falas de vocês duas são povoadas de mulheres, que parece que desempenharam papéis fundamentais nas suas buscas, nas suas caminhadas. Vocês poderiam comentar um pouco mais sobre as mulheres indígenas que têm inspirado vocês, sejam elas parentes, pessoas das suas comunidades, militantes, intelectuais?

Ángela – Definitivamente, minha avó Julia. Porque ela me criou durante os primeiros anos da minha vida, antes de eu começar a ir para a escola. Sinto que fui educada por ela, não tanto pelo sistema público de ensino – claro que a escola me alfabetizou, mas o modo como eu vejo o mundo deve-se inteiramente a minha avó. Ela é a primeira pessoa que precisa ser mencionada. Eu reparava em como ela se relacionava com a terra, cuidando das plantas e de tudo ao seu redor... Ainda que a gente não se veja todos os dias, ela continua me ensinando. Ela tinha um defumador e me explicou como usá-lo; também me ensinou a curar usando chás e incensos. Isso é meio tangencial, mas eu acho importante dizer. Já minha mãe foi socializada para falar que não é indígena, mas, mesmo assim, ela me impactou em relação à educação. Sinto que a minha inclinação para as narrativas e para a escrita vem dela também, porque nós sempre assistíamos juntas filmes de ficção científica ou narrativas distópicas, o que me influenciou muito. Atualmente, eu pesquiso a descolonização da teoria do trauma, recorrendo a epistemologias indígenas e incorporando narrativas orais da minha família. No mestrado, pretendo estudar ficção científica e literatura distópica chicanx, mexicano-estadunidense e indígena, debatendo a importância da decolonialidade na literatura americana. Outra mulher que me influenciou, com certeza, foi minha tia Dolores, porque ela vem procurando enfatizar e fortalecer suas conexões com sua avó e com seu patrimônio – sua avó era curandera.

E, honestamente, todas as mulheres indígenas que têm vindo à UT – sem dúvida, Pamela Palmater e LaDonna Harris [militante Comanche, dos Estados Unidos]. E também Winona LaDuke [ambientalista, economista e escritora Ojibwe, dos Estados Unidos]. Ainda que eu não a conheça pessoalmente, escutá-la defendendo os direitos dos povos indígenas em Standing Rock [mobilizados contra a construção de um oleoduto sob o rio Missouri, que impactaria território indígena, em Dakota do Norte] e ouvi-la falando sobre o trauma histórico sofrido por esses povos e comunidades me inspiraram a me tornar militante. María Rocha, do Indigenous Cultures Institutes,também me inspira muito. Na época em que eu estava sentindo dificuldades de pertencimento na universidade, encontrei-a no Four Directions e, não sei bem por quê, decidi conversar com ela. Ela me falou da necessidade de recuperar e enterrar os nossos ancestrais – a UT, sozinha, está em posse de mais de 2.400 restos mortais de indígenas. Nós conversamos um pouco e ela começou a me encorajar a me aceitar. Eu não precisava de um documento para provar quem eu era, estava tudo bem, porque muitos de nós viemos de pequenos grupos, de pequenas comunidades. Não é questão de provar nada para ninguém, mas de se aceitar, de olhar para sua família, de perceber as maneiras pelas quais a cultura sobreviveu, as experiências sobreviveram. Ela realmente me motivou a ser ativa na comunidade, mesmo que eu me sentisse estranha no começo, em função de como andava minha autoestima como mulher indígena.

Marleen – A primeira pessoa que vem à mente é a minha bisavó Gozita. Porque ela disse: “Não, eu não vou embora!”. No final, ela teve que deixar sua casa, mas ela continuou rezando no quarto, ela continuou com seu altar, ela continuou… É interessante o fato de que eu não ter conseguido encontrar o defumador da minha bisavólogo depois que ela morreu. Minha avó o utilizava também, especialmente no Día de Muertos, com cempasúchil [cravo-de-defunto] e copal – eu descobri isso depois que a minha bisavó morreu. Perguntei para a minha avó e ela: “É, eu uso no Día de Muertos...”. Mas ela não queria falar muito sobre o assunto. Então, eu disse: “Mas, vó, você é uma curandera!”. Ela nunca foi ao médico, resolvia tudo com hierbas, sobadas, curar de susto e tudo mais. Agora eu entendo a cautela que ela tinha, porque, na geração dela, isso era razão para vergonha. “Não, não faça isso, isso é obra do demônio.” Com o tempo, eu entendi que, em vez de criticá-la, eu deveria dizer: “Vó, por que você não me ensina?”. Eu lembro que a minha primeira reação foi: “Como você tem coragem de mentir para mim?”. Na geração dela, ser índio não era “bacana”, saber de onde você vinha não era legal; você tinha que seguir o projeto nacionalista de se tornar mexicano. No caso da minha mãe, que imigrou para os Estados Unidos, tratava-se de seguir o projeto nacionalista de se tornar latina, sabe? Quanto mais se aprofundam esses projetos, mais você se afasta das raízes, de quem você é.

Voltando para a minha bisavó: minha bisavó era ótima, eu me sentia muito conectada com ela. Depois que meu avô morreu, minha mãe encontrou o defumador e me deu. Porque eu lembro que, depois que a minha avó o encontrou, eu pensei: “Ah, eu quero ficar com ele!”. Mas, durante anos, não pude achá-lo, ele simplesmente não aparecia! Eu perguntava para todo mundo! Foi preciso que a minha mãe o encontrasse e me desse. Esse objeto sagrado teve que ser transmitido matrilinearmente: ele foi da minha bisavó, foi usado pela minha avó e me foi entregue pela minha mãe. Ele fica ali e eu sinto que minha bisavó é, definitivamente, minha guardiã, sinto que ela me acompanha aonde eu vou. Então, quando eu percebo que estou me escondendo… Porque, às vezes, eu me escondo para fumar tabaco, para rezar, porque, você sabe… As pessoas chegam: “Você está fumando cigarro aqui?”. “Não, querido, não é isso que eu estou fazendo, é algo totalmente diferente.” Às vezes, eu me vejo procurando um lugar “adequado” para fazer isso, mas então eu penso nela e digo: “Não! Ela teve que se esconder, eu não tenho que me esconder agora”. Ela teve que se esconder para que isso continuasse, então é minha vez de dizer: “De jeito nenhum!”. Em espaços onde me sinto suficientemente segura para fazê-lo, eu faço.

Minha mãe. Minha mãe, por ter cruzado aquele rio [Bravo] até aqui. Porque foi preciso que eu nascesse fora daquelas terras, a primeira geração que não nasceu naquelas montanhas, que terminou no Texas… E estas terras... Yanawana, o espírito desta terra, o espírito da água, a comunidade Coahuilteca [etnônimo englobante para diversos grupos indígenas autônomos originários do território que hoje corresponde ao sul do Texas e a parte do México], especialmente o Dr. Mario Garza e dona María Rocha, com certeza... A mulher-água e essa comunidade espiritual me ensinaram tanto… O espírito desta terra, desta terra especificamente, as fontes de água mudaram minha vida. Então, eu vou incluir Yanawana nesta lista, como uma mulher, um espírito, que definitivamente continua a influenciar meu trabalho. Minha dissertação de mestrado é sobre Yanawana e seus impactos na descolonização da educação, de uma educação referenciada no lugar – é sobre isto que vou fazer meu doutorado, sobre como podemos pensar nos lugares de um modo muito sagrado, como honramos os lugares em que estamos. Aqui, eu sou alguém vindo de fora, meu povo não vem daqui. Então, é minha responsabilidade aprender sobre os espíritos desta terra, sobre os cuidadores desta terra, os guardiões desta terra. Por isso, a comunidade daqui tem sido tão importante para mim, para que eu saiba quem eu sou, reconhecendo que todas as águas estão conectadas, todas as terras estão conectadas.

Minha avó costumava ir a uma fonte – há uma fonte perto da nossa casa, no México, onde minha avó costumava ir. Havia uma pequena fonte no alto e um poço maior embaixo, onde todos iam nadar. Ela dizia: “Vem para cá!” Ela me trazia para a parte de cima, um lugar muito calmo, muito raso. E eu reclamava: “Quero brincar!”. “Espera! Primeiro, é preciso se curar, depois brincar.” Ela levava uma cadeira, se sentava, me pedia que esfregasse barro nos seus joelhos, nas suas juntas... Ela me fazia se sentar com ela e só depois eu podia ir brincar. Eu não me dava conta do que ela estava fazendo: ela estava dando oferendas para a água. Ela levava comida, frutas, copal, todas essas coisas; ela dava oferendas para a água e, em troca, a água lhe dava remédio, ela era curada. Então, o fato de ter essa conexão com aquela fonte e de viver em um lugar onde há quatro fontes sagradas, aqui no Texas… Quando eu converso com Yanawana, estou conversando com a água lá de casa. Os espíritos dessas águas estão conectados. E eu sei que os espíritos das águas lá de casa sabem que os espíritos das águas daqui estão cuidando de mim, estão cuidando do meu povo. Ángela, quando você falou sobre migração, sobre esse processo tão bonito de ter asas… É muito, muito triste que tantos de nós, do nosso povo, tenham suas asas cortadas. É disto que se trata: mais uma tática colonial para manter nosso povo oprimido, tenham essas pessoas ou não o privilégio e a beleza de reconhecer quem são. Adoro o fato de que o símbolo da migração é uma borboleta. Porque é disto que se trata: aves, borboletas. Temos asas, temos direito de migrar.

Então, sim, minha bisavó, minha mãe, minha avó, as fontes de água – as mulheres na minha vida são tão fortes! Olhando para trás, para a árvore genealógica que eu comecei a construir, para as linhagens tanto do lado paterno quanto do lado materno, não consigo achar brancos nas linhagens matrilineares de ambos os lados. Há um homem branco do lado da minha mãe e um homem branco do lado do meu pai. Na verdade, do lado paterno, era um garoto branco, que foi encontrado nas montanhas durante a Revolução [Mexicana] e acabou sendo adotado pela família. É interessante, porque esse sangue... Há tantas histórias sobre como essas coisas aconteceram...

Daniela – Nós falamos um pouco sobre as organizações estudantis indígenas e sobre invisibilização na universidade. Se possível, gostaria de continuar discutindo o modo como a UT tem lidado com a presença de estudantes e professores indígenas. Imagino que as coisas estejam mudando, mas que ainda haja muitos problemas. No site da UT, na seção dedicada às estatísticas relativas aos estudantes, está escrito: “Indígenas dos Estados Unidos: menos de 1%, Nativos do Havaí e das Ilhas do Pacífico: menos de 1%”. Achei essa redação, no mínimo, problemática: é possível interpretá-la como uma minimização da presença indígena. Como vocês veem isso? Vocês têm recebido denúncias de racismo? Que outros problemas veem? Sei que a questão é enorme, mas queria ouvi-las sobre como a UT está se saindo.

Ángela – Por onde começar? Eu fico muito feliz de termos um programa de estudos indígenas aqui [Native American and Indigenous Studies (NAIS), vinculado ao College of Liberal Arts da UT Austin]. E acho que seria preciso haver mais – isso não é culpa do diretor do programa, é culpa do nosso sistema de ensino. Fico feliz que tenhamos o Mexican American and Latina/o Studies (MALS) [também vinculado ao College of Liberal Arts]. Só que, no Departamento de Inglês, as aulas não levam em consideração as leituras indígenas. A Marleen estava falando sobre a água... Eu cresci perto do Rio Grande – minha família tem uma relação complicada com isso, mas eu sinto que tenho uma ligação com esse lugar, não importa. O modo como eu vejo a água é o seguinte: estamos todos conectados através dela. Só que não é dessa maneira que a maioria das pessoas vê e compreende a água. Na sala de aula, quando eu tento contextualizar a partir da perspectiva indígena um livro como The Scarlet Letter [de Nathaniel Hawthorne], criticando-o por ser anti-indígena, minha voz é silenciada. Quando nos davam para ler teorias ocidentais, escritas por homens, sobre a paisagem dos Estados Unidos, ou Turtle Island [expressão comumente utilizada por povos indígenas para se referir à América do Norte], eu procurava oferecer leituras alternativas, mas isso nunca era bem recebido. Eu fico frustrada, porque, do jeito que as coisas estão, isso vai continuar assim. Esse é um dos problemas, mas não é o único.

Há muitas maneiras pelas quais a invisibilização e a marginalização ocorrem. Frequentemente, as pessoas não respeitam meus limites, meu espaço. Por exemplo, alguns estudantes de jornalismo ou de outros cursos me pedem entrevistas e fazem perguntas, digamos, estranhas. Alguns não sabem como tratar os outros como pessoa. Eu não estou falando apenas da administração da universidade, mas do corpo discente também. Isso é outro problema. É muito difícil encarar isso por conta própria; a tendência é se sentir sozinho, mesmo que nunca estejamos sozinhos. Esses são apenas alguns dos problemas. Outro é a falta de representatividade nos níveis superiores da hierarquia acadêmica. Nós não temos orientadores ou conselheiros indígenas. Os eventos que a universidade organiza para que os estudantes conheçam uns aos outros não consideram os estudantes indígenas. Eu tentei ir a esses eventos, mas não dava certo, porque ninguém entendia como minha cabeça funciona, não levavam em conta que eu sofri trauma histórico, trauma colonial, então, não dava certo. Muitas dessas coisas são estruturais.

E há também o fato de que não se discute o suficiente o que significa ser indígena, como isso pode ser problemático e como fazemos para sermos inclusivos. Porque nós não estamos nos referindo apenas aos indígenas dos Estados Unidos; o NAIC e o NAIPA [Native American and Indigenous Peoples Association] são pensados para ser espaços para quem é indígena, seja de que comunidade venha. Eu acho que a incapacidade de reconhecer isso está presente na coisa do “menos de 1%”. Penso que muito disso remonta ao modo como somos socializados ou educados na escola pública, à forma como nos tornamos projetos coloniais. Isso vai perpetuando uma noção de “autenticidade”, de quem pertence e quem não, segundo o modo como nos classificamos. Falta discussão. Esses são apenas alguns dos problemas, não todos. Eu tenho muita dificuldade com o ambiente da UT, de estar em espaços em que sou a única pessoa que se identifica como indígena. É uma longa lista de lamentações, há muito a se melhorar.

Marleen – Eu cheguei à UT em 2008, como estudante de graduação, e fiquei até 2013; de 2013 a 2016, saí para dar aulas; e em 2016, voltei para o mestrado. Ou seja, desde 2008, tenho estado bastante na UT, mesmo nos três anos em que fiquei fora, porque as coisas continuavam acontecendo, continuávamos organizando atividades, os diretores do NAIC sempre me procuravam: “Ei, podemos conversar?”. Então, são quase dez anos de relação com a UT. Posso dizer que as coisas mudaram bastante – em 2008, 2009, eu nunca imaginaria a existência do NAIS, eu nunca imaginaria que poderia haver um espaço para os estudantes indígenas no SAC [Student Activity Center]. Eu jamais imaginaria ver pessoas não brancas sentadas naquele escritório, representando o NAIC; eu nunca poderia imaginar o NAIC ali. Então, sim, algumas coisas melhoraram, há muito mais visibilidade. No começo, éramos três. Quando assinamos os papéis para criar o NAISA, éramos três. Na época, nós localizamos uns aos outros por meio das organizações mais chicanas, mexicano-estadunidenses, latinas, organizações não brancas, esse tipo de coisa. Quando começamos a saber mais sobre nós mesmos, dissemos: “Certo, é isso que nós somos”. Esses espaços não estavam aqui, nós tivemos que cavá-los.

Mas, mesmo agora, a coisa é muito ruim... Seguimos sendo invisíveis, continuam não nos levando a sério, ainda somos estereotipados, continuamos fora do currículo. Espero que daqui a dez anos haja melhoras. E nos dez anos seguintes. E que continue melhorando. Fico imaginando o que aconteceria se as estruturas existissem, se eles dessem a mínima para a gente – porque eles não dão. Se nestes dez anos houve um monte de avanços foi porque as pessoas deram duro, de baixo para cima. Isso foi feito pelos estudantes, pelos professores que se identificam como indígenas – porque eles enfrentam todo tipo de merda, eles são invisíveis naqueles espaços, eles tiveram que enfrentar sabe-se lá o quê para chegar até ali. Os avanços se devem a pessoas que arriscaram seus empregos para nos orientar, que arriscaram muitas coisas para que esses espaços existam. Eu fico imaginando: e se tivéssemos o mesmo apoio que o time de futebol americano tem? Como seria se tivéssemos o mesmo apoio que o pessoal da Engenharia tem? Na Engenharia, eles acabam de conseguir milhões de dólares para uma espécie de fundo – acho que 25 milhões de dólares. Para Engenharia de Petróleo, para fazer exatamente o oposto do que estamos dizendo: “Parem de perfurar nossa mãe!”. Acho que esse é o melhor exemplo de como eles não dão a mínima – um exemplo entre muitos e muitos.

Então, eu não me surpreendo com o fato de eles falarem de nós dessa maneira ofensiva, eu não fico surpresa com o fato de o número de indígenas na universidade ser pequeno. Na verdade, fico até feliz que ele esteja perto de 1%, porque costumava ser zero vírgula alguma coisa. Eu sei que eles falam em menos de 1%, mas, se fosse mais perto de zero, eles colocariam algo como “menos de 0,5%”. Há muitas coisas acontecendo fora desta instituição predominantemente branca e que estão servindo para conscientizar as pessoas – por exemplo, Standing Rock. Mas nós continuamos invisíveis, nós não estamos onde deveríamos estar. Fico tão feliz com o fato de o Dr. Luis Cárcamo-Huechante [Mapuche, do Chile] ser o diretor do NAIS. Nunca, como estudante, tive tanto apoio por parte de um professor, de um diretor de programa – nunca. Então, foi algo como: “Nossa, é assim que se sente quem é representado! É assim que outras pessoas se sentem o tempo todo”. É tão bom saber que há alguém com quem podemos conversar e que essa pessoa vai fazer o que pode. Isso não existia dez, cinco anos atrás.

Então, as coisas melhoraram, mas há muito que precisa ser feito, em nível estrutural – especialmente de cima para baixo, porque, de baixo para cima, nós podemos fazer muita coisa sem depender dessa merda toda. Porque é isto: no fim das contas, temos que assistir aulas que não foram feitas para nós, cujo currículo não nos contempla, com professores que não se identificam conosco, que não reconhecem diferentes modos de saber e de existir. As pessoas estão mais conscientes, de modo geral – ainda não é o suficiente, mas está acontecendo. Enfim, eu olho para tudo aquilo que nós temos que engolir, mas então me lembro de tudo que meus ancestrais tiveram que enfrentar: “Certo, esta é a minha batalha e eu não vou recuar”. Pois eu estou aqui porque eles não recuaram: eles fizeram o que tinham que fazer para que nós continuássemos vivendo.

Ángela – Eu já passei por situações em que as pessoas dizem coisas como: “Vocês já receberam reparações. Por que estão reclamando?”.

Marleen – Você está falando sério? Você colocou isso no papel? Eles não podem dizer isso!

Ángela – Nós estávamos fazendo um exercício sobre estratificação racial, quando um homem negro virou para mim e disse que, para a comunidade afroamericana, as coisas eram piores que para os indígenas, porque nós já recebemos reparações. Em seguida, ele falou que estava mais informado sobre história indígena do que eu: “Bom, eu li sobre o Caminho das Lágrimas [referência a uma série de remoções forçadas de povos indígenas realizadas pelo governo dos Estados Unidos na primeira metade do século 18], eu conheço alguma coisa da história indígena”. Eu disse: “Isso aconteceu com cinco nações específicas, não com o meu povo”. Quer dizer, aconteceu com o meu povo, mas não com a minha comunidade, especificamente, para que eu possa dizer que é minha história. Sim, é parte da minha história, mas eu não posso reivindicar ter sido pessoalmente afetada por esses acontecimentos. Aí, ele continou: “Bom, eu sei um monte de coisas sobre os índios, eu conheci vários índios quando fui para uma conferência”. Na hora, não tive forças para dizer tudo que deveria ter dito.

Eu sou a única pessoa do meu trabalho que se identifica como indígena – há outras pessoas de origem indígena, mas eu sou a única a me autoidentificar. Naquele caso, eu senti que precisava manter um equilíbrio entre escutar o que o homem dizia – colocando-me como aliada – e me defender. Não foram muitos os que se colocaram ao meu lado naquele caso, mas algumas mulheres negras, sim, chamando a atenção para a invisibilização que eu e os povos indígenas de todos os lugares sofremos. Eu tive que me defender, e a coisa foi ficando cada vez mais agressiva. E isso continua acontecendo... Para mim, é difícil navegar nesses lugares, porque eu não posso falar em nome de todos os indígenas, eu falo por mim, mas eu sinto que faz parte das minhas obrigações... Eu não quero que essa visão seja introjetada na comunidade aqui em Austin.

Definitivamente, houve avanços, mas é preciso avançar mais. As pessoas precisam entender que não dá para dizer essas coisas, que não dá para pensar essas coisas. Em certos espaços que eu tenho que navegar nesta instituição, tem sido muito difícil. Mas eu tenho o Dr. Cárcamo-Huechante, o Dr. Dustin Tahmahkera [professor da UT, Comanche], que se colocam e me apoiam, seja como for. Eu não quero que indígenas – especialmente, mulheres, mas todos os indígenas e, na verdade, toda e qualquer pessoa – tenham que passar por essas agressões, por algo que  de certa forma é violento, e saber que ninguém vai te defender.

Marleen – Com certeza, isso é muito violento.

Daniela – Eu tenho procurado saber mais sobre Standing Rock e muito do que li destaca o papel da juventude. Sei que Standing Rock se tornou um símbolo e que tem tido o poder de afetar outros lugares, outras lutas. E também que aquele processo acarretou a criação de uma sede do International Indigenous Youth Council em Austin. Ao mesmo tempo, nestes meses em que estou aqui, pude ver como vocês se engajaram no powwow [evento importante do calendário indígena dos Estados Unidos, marcado por competições de dança, rituais e outras atividades] de San Marcos, no de Austin, e como mantêm relações com organizações locais, como Indigenous Culture Institute e Great Promise for American Indians. Me parece que o NAIC e o NAIPA não estão trabalhando só para os estudantes indígenas, mas têm servido para conectar os universos de dentro e de fora do campus. Não sei se é desse modo que vocês veem essas organizações, mas é a impressão que eu tenho: que o papel delas não se limita à UT. Isso faz sentido?

Marleen – Isso sempre foi importante para mim, pessoalmente. Toda organização com a qual eu trabalho tem que ter um componente comunitário, o reconhecimento de que nós não andamos sozinhos. Mesmo quando achamos que estamos andando sozinhos, nossos ancestrais estão conosco – nós não fazemos nada de maneira individualista. Eu não estou aqui apenas por causa das coisas que eu fiz, mas por causa de todas as experiências, de todas as interações e relações que eu tive. Então, a importância da comunidade é enorme. Desde que o NAISA começou, desde que eu comecei a me mobilizar... Eu comecei a me mobilizar bem jovem, organizei minha primeira marcha quando tinha 14 anos, ainda na escola. A questão é sempre a seguinte: como trabalhamos juntos? Em todas as instituições em que estive, esta é a questão: como atingimos as pessoas? Como podemos construir pontes de solidariedade com a comunidade, com outros grupos marginalizados? Como fazemos as coisas acontecerem, de modo que sejam produtivas e durem? Com o NAISA, uma das nossas determinações centrais era: se fizermos um evento no campus, temos que fazer um equivalente fora do campus. Com a gente, era assim. Não sei como as coisas foram mudando, mas eu ainda vejo certo equilíbrio nesse sentido.

Quando voltei, como estudante de pós-graduação, eu não sabia como ia ser o meu tempo e como poderia ser minha militância. Mas o que eu vi aqui não me pareceu suficiente, especialmente em relação aos estudantes de pós-graduação. “Por que diabos não estamos fazendo alguma coisa?” Então, vim com a ideia de colocar um tipi [tenda indígena] no campus. Eu não vou mentir: as pessoas achavam que eu estava louca. Mas eu disse: “Esperem e verão”. Porque não era eu sozinha: era a comunidade. Procurei o povo Lipan Apache, o senhor Richard [González] – antes de chegar até ele, tive que passar por toda uma série de lideranças, que foram me conduzindo a ele, até que ele atendeu ao telefone e disse: “Deixa comigo. E vai ser de graça”. “Por que de graça?” “Porque você é da comunidade.” Claro que nós ofertamos a ele uma joia e tabaco – é uma relação de reciprocidade, você recebe e você dá, é uma troca de energias, seja qual for a forma que ela assuma. O modo como procuro me mover em meio ao privilégio que tenho de estar neste espaço é tentando estabelecer pontes em direção a outras comunidades. Nós tentamos fazer os eventos fora do horário de trabalho, sempre de graça, se possível com comida e, claro, com espaço para as crianças. Porque essas coisas são importantes – estamos falando de pessoas que trabalham o dia inteiro, de pessoas com crianças. Não estou aqui por conta própria: estou aqui porque a minha comunidade acreditou em mim e me apoiou de várias formas. Como retribuímos e como mantemos essas relações? Você tem razão: há uma ligação.

Sobre o IIYC [International Indigenous Youth Council], nós fundamos oficialmente a sede do Texas em janeiro [de 2017], depois de termos ido para Standing Rock, em novembro do ano passado. Semana que vem, completa um ano de quando fomos para Standing Rock – a gente tem se lembrado tanto disso... Sabe o que nos levou até lá? As águas desta terra. Em setembro, eu sonhei que estava com um pote de água na mão, parada ao lado de um rio congelado. Eu pegava o pote de água e despejava no rio. Tive esse sonho em setembro; em outubro, participei de um ritual, e o fogo me disse: “Aquele rio é o Missouri, em Standing Rock. Você tem que pegar água desta terra e misturar com a água de lá. Porque as águas estão conectadas em oração”. A mensagem não era: “Você tem que ir”. Era: Aságuas querem que ir”. Nós não tínhamos dinheiro, nós não tínhamos nada. Seis de nós queriam ir, decidiram largar tudo e ir. Então, saímos em busca de contribuições, de ajuda para alugar um veículo. Mas nós não tínhamos dinheiro. Três dias antes da viagem, recebemos uma doação, de um homem chamado Walter Benjamin, com a seguinte mensagem: “Soube o que vocês estão fazendo. Fico feliz que estejam fazendo isso. Espero que isso ajude”. Era uma doação de mil dólares. Isso cobriu o veículo, o combustível e nos ajudou com a lenha. Então fomos. Adivinha o que aconteceu? Os rios se misturaram exatamente como no sonho. O rio [Missouri] estava começando a congelar, fazia frio e eu carregava um frasco de Yanawana. Então, as águas se misturaram.

Quem nos hospedou em Standing Rock foi o IIYC. Nós não tínhamos onde dormir: íamos dormir no veículo. Imagine, nós somos do Texas: não tínhamos roupa de inverno, só levamos nossas cobertinhas. “Não sei o que fazer, acho que vou vestir dez meias ao mesmo tempo, não sei.” No caminho, uma das nossas companheiras trocou mensagens com um cara de Chicago. Nós o tínhamos conhecido em um ritual em Dakota do Sul, no verão anterior. Aí ela perguntou para ele: “Você sabe onde poderíamos ficar?”. “Claro! O IIYC é maravilhoso! Vou contatar meu amigo Carlos [Terrazo] e, quando vocês estiverem lá, procurem o Carlos, procurem o IIYC, digam que são meus amigos – quando vocês chegarem lá, eu já terei falado com ele.” Chegamos lá, andamos pelo acampamento, até encontrar o tipi da IIYC. E lá estava Carlos. “Sua amiga disse que talvez pudéssemos pedir para dormir aqui...” “Claro! Não se preocupem: quanto mais gente, melhor; quanto mais gente, mais quente. Venham!” Nós ficamos com eles.

Enquanto estávamos lá com eles, sabe o que fazíamos todas as noites? Cantávamos, compartilhávamos conhecimentos, cantos, rezas, teorias, tudo. Porque, pela primeira vez nas nossas vidas, nós sentimos... Eu não sei se você está sentindo o mesmo que eu, Ángela, mas, conversando com você agora, fiquei com vontade de te conhecer melhor. A gente percebe quanta coisa temos em comum. Foi assim durante todo o tempo em que estivemos lá. Pudemos ver como eles estavam organizados e ficamos admirados com isso. No último dia, demos um pouco de Yanawana para cada um, um pouco de água – porque nós levamos a água até lá. Nós lhes demos um pouco de água e eu perguntei ao Carlos: “Como se cria uma sede do IIYC?”. Ele respondeu: “Achei que você nunca ia perguntar!”. Eu não ia perguntar, eu achava que era uma dessas coisas em que você precisa ser convidado. Naquela altura, havia uma sede em Denver, uma em Chicago e outra em Standing Rock. Ele disse: “Fiquem em contato. Continuem fazendo o trabalho que vocês já vêm fazendo”. Porque nós estávamos lutando pelas águas aqui havia anos.

O IIYC está acontecendo. Standing Rock está acontecendo. Há gerações. Eu sinto que, agora, ele se tornou um símbolo da unificação das lutas, de unificação das rezas, de unificação... “Caramba, você está vendo o mesmo que eu? Lá na Austrália? Você está vendo o mesmo que eu aí do Canadá?” Foi algo como: “Nossa, nós todos estamos tendo a mesma visão!”. E o que nós víamos? A água. O elemento que nos dá vida, o primeiro elemento com o qual nos conectamos na barriga das nossas mães. Esse lindo elemento foi o que nos reuniu. Como eu disse, as pessoas já vinham fazendo isso desde sempre. E Standing Rock se tornou uma visão de unificação. Esse efeito de multiplicação é aquilo de que você está falando. Quando [as forças de repressão] atearam fogo ao acampamento, um dos anciões disse, olhando para as chamas: “Se ao menos eles soubessem que o que fizeram agora foi espalhar o fogo...”. Isso significa que todas as pessoas que chegaram a Standing Rock, não apenas fisicamente – porque você pode chegar a um lugar sem sair fisicamente de onde está, não estamos falando da noção ocidental de “chegar” –, qualquer um que se solidarizou, que mandou boas vibrações, que enviou doações, que fez o que quer que fosse para chegar lá, em troca, levou cura para casa.

Nós estamos nos organizamos de outros modos agora. Há mais processos de organização em marcos de descolonização, por causa de Standing Rock. Muitas coisas boas vieram de lá, sabe? Então, em janeiro, nós criamos a sede do IIYC no Texas. Estamos conectados a todas as outras sedes do país, de toda parte – esperamos nos tornar mais internacionais, começando pelo México. As seis pessoas que foram para Standing Rock se tornaram, de certa forma, o núcleo duro do IIYC Texas. De janeiro até agora, estivemos pensando em como nos tornarmos uma organização em maior escala. Estamos refletindo sobre como envolver mais membros. Mas seguimos muito cuidadosos, porque sempre há pessoas com más intenções. Estamos discutindo todas essas camadas: como você protege esses conhecimentos e esses modos de ser e, ao mesmo tempo, se abre para pessoas que estão tentando aprender, pessoas que estão tentando se curar e crescer. Quatro de nós somos daqui da UT. E foi assim que a IIYC se envolveu com o campus. Não é uma organização estudantil oficial, um espaço institucional. Por isso, ela tem muito mais margem para ser radical, em certo sentido, e pode construir laços de solidariedade com o NAIC e o NAIPA, estendendo mais uma ponte para a comunidade. Não sei se respondi.

Daniela – Sem dúvida. Eu queria continuar conversando por horas. Muito do que vocês falaram se comunica diretamente com processos de luta que estão acontecendo no Brasil.

Marleen – Posso te contar uma história que eu escutei? Em abril do ano passado, sete jovens pediram a um ancião para erguerem uma tenda para a realização de ritos de purificação. Ali, eles rezaram para que as pessoas escutassem o chamado, para que as pessoas fossem a Standing Rock, fossem para aquela terra e ouvissem a mensagem que eles tinham sobre a água. Sete jovens. E eles começarem a realizar os rituais naquela tenda regularmente. De abril a novembro. Quando nós estivemos lá, em novembro, havia mais de dez mil pessoas. Eu queria compartilhar isso. Aqueles sete são os fundadores do IIYC. Isso dá uma ideia do poder da juventude, sabe? O poder da reza, o poder dos conhecimentos e rituais intergeracionais.

Foto das entrevistadas: Daniela Alarcon

Fotos de Standing Rock: Marleen Villanueva

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Edição 4