À beira do abismo, os escombros

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A poeta disse que vivemos “à beira de”. Um abismo. Penso sobre a excitação e a liberdade de viver na beirada. Poder olhar por cima da fronteira. Decidir se lá ou cá. Assim, a qualquer hora. Porque o precipício não precisa ser fim. Pode ser re-dimens(id)ão do mundo. Vertigem. de Desconforto. Deslocamento. O fascismo que bate à porta é precipício. Abismo. Notícia boa: A ele, nós sobrevivemos sempre. Diante do fim do mundo que espreita na esquina, nós. E nós sempre sobrevivemos. É do fim de muitos mundos que esse mundo nasce. Epistemicídio. Evocar o fim do mundo, rememorar a vida. Sobrevivendo. Em meio ao caos, lembrar de não ceder à pulsão de morte que fala a língua do denuncismo, da vitimização, da dor e do sofrimento. O luto é livre. O risco é de morte. Temos direito a ele. Mas se tudo o que conseguimos balbuciar é o vocabulário da denúncia, se tudo o que conseguimos fazer é portar-nos como vítimas, recuar, portanto, criando uma zona confortável de dor e sofrimento a qual habitar, em negação, aí sim morremos. Abandonamos a vida, deixamos de ser capazes de imaginar e produzir saídas. Gambiarra é a nossa fuga armada. É assim que nós, com o nosso jeitinho, cotidianamente, solucionamos a crise deles. E sobrevivemos. Sobrevivemos sempre. É o chá, a compressa ou o unguento que produz cura, sabedoria ancestral; é o quintal que provê o alimento que o dinheiro não alcança; é a panela que dá de comer a quantos forem os que tiverem fome; é o encontro que salva da loucura. Então, vamos habitar com inteligência e sensibilidade esse buraco em que nos enfiamos. Sem lamentações ou nostalgia. Investir numa pragmática especulativa para sair desse lugar. Movimento. Dançando nossa revolução, vamos ultrapassar, mais uma vez, o fim do mundo. O que podemos fazer hoje para sobreviver por mais um dia? Que estratégias adotar para proteger quem é alvo do ódio? Quais alianças? Que coalizões? Como a gente vai se cuidar? Qualquer coisa diferente disso é irresponsabilidade. Fugir do Brasil? Se exilar? Branquitude covarde e insolidária! Parem de dizer isso. Tenham vergonha. Ao lado do abismo, os escombros. E sobre eles, nós, invisíveis, sobrevivendo, fazendo comunidade.

Tatiana Oliveira

Foto: Bruna Piazzi (2018).